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Entrevista: Brasileira trabalha como professora voluntária na Tailândia

Com outras experiências de intercâmbio no Canadá e na França, a professora de inglês Laura está na Tailândia há 18 meses trabalhando em uma escola pública

Entrevista: Brasileira trabalha como professora voluntária na Tailândia
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Laura Shizue Igawa, 34, é de Ubatuba, São Paulo, e formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Internacionalmente certificada como professora de inglês com diploma TESOL (Teaching English to Speakers of Other Languages) obtido no Canadá, a brasileira já havia feito trabalho voluntário na França antes de decidir-se por um intercâmbio como “Professora Assistente” na Tailândia, oferecido pelo AFS, pelo qual trabalhava como voluntária em uma escola na cidade de Thung Song.

 

“Escolhi a Ásia pela vontade de conhecer mais sobre o modo de vida neste continente tão exótico”, conta ela. Laura gostou tanto da experiência que resolveu permanecer na Tailândia e conquistou um emprego como professora graças ao seu período de voluntariado.

 

Conheça a experiência de Laura a seguir!

 

Quais fatores te levaram a optar por um intercâmbio de trabalho voluntário? E por que especificamente na Ásia?

 

Já havia feito trabalho voluntário no Brasil e na França. No Brasil, ajudei a Associação Nipo-Brasileira da minha cidade nos festivais de cultura japonesa que acontecem anualmente. Na França, onde fiz um curso de língua francesa durante 3 meses, tive a oportunidade de trabalhar em uma entidade chamada ‘Les Petits Freres des Pauvres’. Meu trabalho era oferecer companhia e ajudar pessoas idosas com dificuldades físicas ou em situações de solidão e exclusão.

 

Estas vivências foram muito gratificantes e através do voluntariado compreendi que gestos simples podem fazer uma grande diferença na vida das pessoas.

 

Assim, quando descobri que o AFS oferecia programas de trabalho voluntário em vários países, decidi que iria aproveitar a chance e viver mais uma experiência internacional. Escolhi a Ásia pela vontade de conhecer mais sobre o modo de vida neste continente tão exótico.

 

Como você encontrou este programa de intercâmbio?

 

Encontrei o AFS por acaso, fui fazer um curso de língua japonesa em São Paulo e vi um folheto sobre a organização em um mural. Acessei o site e vi que era possível fazer trabalho voluntário no exterior. Um dos países despertou minha curiosidade: Tailândia. Viajar para trabalhar com a comunidade local seria mergulhar no desconhecido e viver um desafio! Em pouco tempo já estava em contato com os profissionais do AFS, tirando dúvidas e conhecendo mais sobre a própria organização. Fiquei surpresa quando descobri o tamanho da entidade, uma ONG global com milhares de participantes e voluntários, todos em prol do entendimento entre diferentes culturas e diferentes países.

 

Como era o seu programa? Ele envolveu algum curso além do trabalho voluntário? Como era a sua rotina na Tailândia?

 

Meu programa foi o de ‘Professor Assistente’ com duração de 6 meses. O AFS ofereceu vários treinamentos durante o intercâmbio. O primeiro, feito antes do embarque, foi intenso, com leitura de textos sobre cultura, identidade, diferenças e semelhanças entre os países, expectativas e dicas para uma boa viagem. Logo que cheguei na Tailândia fui recepcionada pela equipe AFS e nos primeiros dias no novo país tive um treinamento sobre os costumes locais, língua e tabus culturais. Um último treinamento foi feito no meio do programa, quando tive a oportunidade de conhecer participantes de outras nacionalidades e compartilhar experiências.

 

Meu trabalho voluntário foi feito na cidade de Thung Song, no sul do país. A escola que me recebeu foi Satree Thung Song School, considerada uma das melhores da região. É uma escola pública para alunos de 12 a 18 anos. Trabalhei com adolescentes de 16 anos cerca de 15 períodos por semana. Minhas responsabilidades eram: preparar e ministrar aulas de inglês focadas em conversação, corrigir exercícios, avaliar o desempenho das turmas e participar das atividades da escola. Há muitas atividades extras e festividades durante todo o semestre. Uma das mais interessantes é o Wai Kru Day, dia de reverência aos mestres. Todos os alunos levam um arranjo de flores e se ajoelham em frente aos professores agradecendo pelo ano letivo. O respeito é muito grande. Os estudantes fazem o sinal de ‘wai’ (com as palmas das mãos unidas em forma de reza) ao encontrar com o professor e se levantam quando este entra ou sai da sala de aula.

 

A alegria dos alunos é contagiante, sempre sorrindo e acenando de forma carinhosa tanto dentro quanto fora da escola. É uma experiência maravilhosa trabalhar em uma escola tailandesa e o dia a dia é muito agradável, pois em geral todos são muito amigáveis e abertos aos estrangeiros.

 

 

Onde você morou durante o intercâmbio? Como encontrou a acomodação? Recebeu ajuda do AFS?

 

O AFS me apoiou do começo ao fim do programa. Ainda no Brasil foram passados os nomes e os telefones das pessoas que seriam meus orientadores na Tailândia. Em caso de algum problema, já sabia com quem contar.

 

Morei em um apartamento oferecido pela própria escola. Minha acomodação foi gratuita e recebi uma ajuda de custo todo mês. Com esta ajuda foi possível cobrir gastos com alimentação e compras no supermercado. A comunidade foi muito receptiva desde o início. Em pouco tempo conheci os vizinhos e o pequeno comércio da minha rua.

 

Você criou uma página para compartilhar a sua experiência. Por favor, fale um pouco sobre ela. Quais as vantagens de manter um registro do intercâmbio?

 

A ideia inicial foi criar um blog para compartilhar momentos da minha viagem com familiares e amigos. Acredito que o projeto foi importante para mostrar não só a cultura da Tailândia mas também o sistema educacional que é tão diferente dos sistemas que conhecemos no ocidente. Com o passar do tempo, os amigos foram passando o endereço do blog para outras pessoas e hoje o thaibutterflies recebe visualizações de várias partes do mundo. Sigo atualizando o blog para divulgar tradições e curiosidades deste país que é considerado ‘a terra dos sorrisos’.

 

Você conviveu com pessoas de diferentes nacionalidades durante o intercâmbio? Se sim, o que acha desta mistura multicultural? Quais são as vantagens?

 

Sim, trabalhei durante o voluntariado e ainda hoje trabalho com professores de diversos países, entre eles: Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, África do Sul, Irlanda, Filipinas, China, França, Camarões, Nova Zelândia e Índia. É um dos aspectos mais interessantes do intercâmbio pois a convivência com múltiplas nacionalidades enriquece nossas vidas em todos os sentidos. Seja na indicação de um livro ou de um filme, na troca de experiências como profissionais ou ajudando uns aos outros, aprendemos a aceitar as diferenças e a compartilhar as semelhanças. Trabalhar em um ambiente multicultural nos ensina a ver uma mesma situação através de diferentes pontos de vista e desperta dentro de nós novas maneiras de ver o mundo.

 

O que você acha da cultura Tailandesa? Como são os costumes locais? O que você mais gosta no país? E a o que foi mais difícil de se adaptar?

 

Aprecio muito a cultura tailandesa que tem como base o respeito entre as pessoas e a manutenção da paz social. Conflitos em público são evitados. A religião predominante é a budista, que preza por um modo de vida simples e sem apego material. Gosto deste modo de vida simples, meu apartamento não tem água quente nem cozinha. Por ser um país de clima quente o ano todo, muitos prédios não possuem sistema de aquecimento de água. E a comida, por ser vendida nos mercados de rua por um preço muito barato, faz com que muitas pessoas não cozinhem em casa.

 

São poucas as dificuldades que vivi aqui. Com relação à língua, estudei um pouco enquanto ainda estava no Brasil. Depois que cheguei aprendi muito no dia a dia, é importante tentar se comunicar na língua local e os nativos gostam quando o estrangeiro faz este esforço. A comida é um fator que requer adaptabilidade também. No caso da tailandesa, é muito apimentada e adocicada. Acho que é interessante experimentar de tudo pois a comida também faz parte da vivência cultural em outro país.

 

Você conseguiu viajar para outros lugares da Ásia? Para onde? O que achou?

 

Além de conhecer a Tailândia de norte a sul, viajei para Malásia, Cingapura e Coréia do Sul. Foram viagens que me trouxeram mais conhecimento sobre a história destes países. A decisão de vir morar na Ásia também me trouxe a oportunidade de rever amigos do Japão e da Coréia que conheci no Canadá, quando fiz um intercâmbio para me certificar como professora de inglês. Para as minhas próximas férias estou planejando visitar o Camboja e o Vietnã.

 

Quais são os principais aprendizados deste tipo de programa? Você o recomendaria a outros brasileiros que estão pensando em ser voluntários no exterior? Por quê?

 

Participar do programa de trabalho voluntário foi uma das melhores escolhas que já fiz em minha vida. Sinto que cresci pessoal e profissionalmente com esta experiência única. Escolher a Tailândia como lugar para realizar o voluntariado foi realmente especial, mas acredito que para qualquer lugar do mundo que você vá onde se envolva com as pessoas e a comunidade local, só terá a aprender e a valorizar ao mesmo tempo o conhecido e o desconhecido, conjugando dentro de si valores como compreensão e adaptabilidade.

 

Recomendo este tipo de programa a todos que estejam buscando evoluir como ser humano e como profissional. É preciso estar disposto a sair da zona de conforto e ter confiança para enfrentar alguma dificuldade que possa vir a acontecer. Acredito que o trabalho voluntário internacional será sempre um marco na vida e na carreira de qualquer pessoa. No meu caso, depois de trabalhar como professora no Brasil durante anos, meu sonho era expandir meus limites e dar aulas em outros países. Com o auxílio deste programa tive a oportunidade de realizar este sonho e, depois que o intercâmbio terminou, continuei vivendo este sonho.

 

 

Há quanto tempo você está na Tailândia? Por que resolveu permanecer após o intercâmbio? Onde você trabalha? Como é o trabalho?

 

Depois que o programa terminou comecei a procurar emprego em outras escolas pois não estava preparada para ir embora. Senti que ainda tinha muito a aprender com este sistema educacional que valoriza os professores e desenvolve responsabilidade nos alunos. Logo em seguida fui contratada por uma escola na mesma comunidade. Estou aqui há um ano e meio. Fazer o intercâmbio foi fundamental para conseguir este emprego pois o voluntariado me deu a oportunidade de mostrar meu trabalho durante 6 meses. Minhas atividades nesta nova escola, Thung Song School, são semelhantes às atividades que realizei como voluntária. Thung Song School é uma escola pública de ensino secundário e tem cerca de 3.000 alunos. Dou aulas de conversação para todas as séries e permaneço na escola das 7:30h às 16:00h. Meus colegas professores de inglês são da Inglaterra, Holanda e África do Sul. O nível de inglês dos alunos é muito bom pois eles tem aulas com professores estrangeiros desde o primário. Posso dizer que sou muito feliz trabalhando como professora neste país uma vez que os estudantes dão valor às aulas e participam ativamente das atividades e projetos.

 

Com experiência de intercâmbio na América do Norte, Europa e Ásia, acredito que podemos dizer que você é uma defensora da experiência internacional, seja para estudo quanto para trabalho voluntário. O que há de tão enriquecedor e gratificante neste tipo de experiência que te impulsionou a procurar por novos intercâmbios ao longo da sua vida e carreira?

 

Fiz meu primeiro intercâmbio para estudar inglês quando tinha 17 anos. Acredito que duas forças me impulsionaram a fazer esta primeira viagem solo: a paixão pela língua e o sentimento de liberdade. Esta experiência me ensinou a não temer estar em um lugar ainda desconhecido, pois vi que no fundo somos todos parecidos, com os mesmos medos, desejos, alegrias e tristezas em qualquer lugar do mundo. Além disso, senti que era capaz de me adaptar a outras realidades e de me comunicar com pessoas de diversas nacionalidades. O convívio com estrangeiros e a possibilidade de fazer amizades no exterior são portas culturais que se abrem. Considero que saber uma outra língua, principalmente o inglês, torna as pessoas mais livres. A partir daí, fiz outros intercâmbios até chegar aqui, na Tailândia. Esta é minha quinta experiência como intercambista.

 

Todas essas viagens foram marcantes, pois morar em um país estrangeiro nos faz reviver situações do cotidiano pela primeira vez. Comprar um remédio, pegar um ônibus, escolher o que comer, cumprimentar alguém, tudo isso pode ser desafiador dependendo de onde você está. Assim, no intercâmbio aprendemos não só sobre uma língua, mas também sobre a cultura em que ela está inserida. Vivências internacionais são enriquecedoras porque acrescentam em nós conhecimento de mundo e autoconhecimento. Ao sair da rotina habitual aprendemos a lidar com nossas fraquezas e nos tornamos mais fortes e seguros. Desta maneira, acredito que só há crescimento quando há sofrimento, ou seja, o que pode ser uma experiência árdua no início se tornará base para uma grande transformação interna. Desenvolvemos habilidades linguísticas e intelectuais bem como sentimentos de tolerância e gratidão. O importante é ter coragem para dar o primeiro passo pois em seguida virão as recompensas pessoais e profissionais que ficarão para toda a vida.

 

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SOBRE O AUTOR

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Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.

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