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Entrevista: programa de intercâmbio de Estudos Culturais na Dinamarca

Entrevista: programa de intercâmbio de Estudos Culturais na Dinamarca
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Patrícia Kuhn é uma jornalista de Santa Rosa, Rio Grande do Sul. Atuante da área de marketing e com carreira encaminhada, ela resolveu dar uma pausa na sua vida no Brasil para ter uma experiência internacional na Dinamarca com o intuito de ganhar “uma nova visão de mundo”. Patrícia escolheu o programa de Estudos Culturais em uma Folk School, voltado para o estudo de questões globais, aprendizados interculturais, entre outros temas. “Se nas escolas tradicionais estudamos para ter boas notas, passar no vestibular, melhorar currículo, aqui estudamos para descobrir nosso propósito de vida, fortalecer nossos valores e embasar nossos princípios”, explica Patrícia.

 

Os objetivos principais deste tipo de programa de Estudo Cultural é proporcionar a estudantes estrangeiros o autoconhecimento e o desenvolvimento de talentos, além da compreensão da cultura tanto europeia quanto do país onde ele é oferecido (no caso da Patrícia, a dinamarquesa).

 

Leia a entrevista com a intercambista:

 

Quais fatores te levaram a optar por um intercâmbio de Estudos Culturais na Dinamarca?

 

A experiência por si só é algo incrível. Cada vez tem se tornado mais popular entre os jovens e quase um item indispensável no currículo. A facilidade do acesso às vivências no exterior, sejam elas cursos de línguas, intercâmbios culturais ou mesmo de estudo, proporcionam uma nova visão de mundo e foi exatamente isso que eu estava buscando. Há dois anos formada e com carreira encaminhada na minha área de atuação, vi que precisava ir além dos meus horizontes e me desafiar a uma experiência fora do país, mas queria algo diferente. Sou voluntária há três anos em um clube de serviço que desenvolve jovens líderes através de projetos para a comunidade, essa atividade me fez buscar algo que fosse além do óbvio. Aprender uma nova língua ou o incremento para o currículo, são importantes, mas naquele momento meu objetivo era me doar para fazer o bem. Quando conheci a AFS, entendi que poderia ir muito além.

 

Como é o seu programa de intercâmbio? Ele envolve algum curso além do trabalho voluntário? Como é a sua rotina na Dinamarca?

 

No meu programa de intercâmbio, moro numa folk school, que pode ser resumida em uma escola para desenvolver habilidades artísticas e culturais. Na minha escola em especial tem a cereja do bolo de receber estudantes do mundo inteiro. Aqui o foco está na intercultura, aprendemos sobre diferentes formas de viver, se portar, de agir através da convivência e do pensamento igualitário proporcionado pelo modelo pedagógico. Mas, além disso, temos experiências de voluntariado na comunidade, uma das minhas matérias que estudo é voltada para cultura e sociedade dinamarquesa, onde conhecemos a realidade do país. Na semana passada conhecemos um lar de idosos aqui que tem uma realidade muito diferente do Brasil e já estamos preparando uma cantata para os vovôs. Formas de proporcionar momentos de felicidade para quem precisa.

 

 

Fale um pouco mais sobre a folk school. Como ela é e como é a sua rotina de estudo nela?

 

A folk school tem uma proposta muito diferente de uma escola normal. O objetivo aqui é desenvolver habilidades e vivenciar novas culturas. Todas as manhãs, temos um encontro de abertura. Todos os estudantes se reúnem com uma pauta do dia, como cultura, história, ou mesmo conversa sobre as relações intra e interpessoal. Depois seguimos para as aulas, temos aulas de segunda a sexta-feira com atividades pela manhã e à tarde. As matérias seguem linhas de arte, música, cultura e esportes. Intercaladas com as aulas, temos a possibilidade de participar do que chamamos de 'Grupos de Interesse', aqui os alunos propõem encontros sobre temas extracurriculares como: aprender língua dinamarquesa, grupos de discussões sobre determinados temas, improvisação, dança, voleibol, futsal. Eu por exemplo estou desenvolvendo um grupo de interesse sobre Televisão, baseado na minha área de formação o objetivo é desenvolver um protótipo de TV escolar. Ainda temos na grade curricular atividades de fomento ao trabalho em equipe e de trocas de culturas. 

 

Quais matérias você cursou e ainda irá cursar?

 

Tenho cinco matérias principais que eu escolhi: pintura, cerâmica, yôga, cultura e sociedade dinamarquesa e slow food. Essa última é uma aula em que trabalhamos o oposto do Fast Food. Todas as terças, pela manhã estudamos um ingrediente principal e colhemos frutas, à tarde cozinhamos as mais diversas comidas e no fim do dia comemos todos juntos. Uma experiência única que nos faz repensar nossos estilos de vida rotineiros e possibilita que possamos vivenciar o processo de produção do início ao fim e compartilhar isso com os colegas.

 

Além dessas matérias que escolhi, ainda são oferecidas: esportes ao ar livre, linguagem e cultura dinamarquesa, costura, cestaria, escalada, passeios de bicicleta, corridas e aulas de música (blues, latina e Street Music). No final de outubro teremos uma alteração nas matérias e poderemos escolher a nova grade. 

 

 

Quais são as características principais deste programa que os diferenciam de uma escola/curso tradicional?

 

Aqui não estamos estudando para obter notas, não realizamos provas. O objetivo principal está em possibilitar ambientes livres e de criatividade para que possamos desenvolver novas habilidades e ampliar as aptidões que já temos. É um formato muito inovador, inventado na Dinamarca e disseminado por outros países como Alemanha e Estados Unidos, mas não tenho conhecimento de escolas assim no Brasil. Se nas escolas tradicionais estudamos para ter boas notas, passar no vestibular, melhorar currículo, aqui estudamos para descobrir nosso propósito de vida, fortalecer nossos valores e embasar nossos princípios. 

 

Quais são os principais aprendizados deste tipo de programa de intercâmbio cultural? Você o recomendaria a outros brasileiros que estão pensando em ter uma experiência no exterior? Por quê?

 

A proposta da AFS é muito interessante, o espírito do voluntariado é algo extremamente marcante. Seja ele para pequenas coisas como ajudarmos na limpeza ou para grandes como a proposta do apoio ao lar do idoso. Com certeza a oportunidade de ser voluntário nos engrandece e nos faz entender o real sentido de “Dar de si antes de pensar em si”. Já experimentava isso no Brasil e viver isso no exterior me faz ter certeza do quanto podemos mudar o mundo com pequenas ações. Indico muito programas de trabalho voluntário no exterior, mas se alguém estiver oportunidade de qualquer tipo de vivência em outro país já pode fazer a diferença. Buscar uma escola carente, conhecer instituições beneficentes, descobrir GAPs na comunidade onde está vivendo, o espírito do voluntariado é o que mais importa. Aliás é uma oportunidade de conhecer o que dá certo, para no seu retorno ao Brasil possa ser voluntário na sua comunidade compartilhando conhecimento e colaborando no desenvolvimento da sua realidade local. Estou buscando viver ao máximo todas essas experiências para levar à minha comunidade quando voltar ao Brasil novas ideias para torná-la melhor.

 

Onde você mora durante o intercâmbio? Como encontrou a acomodação? Recebeu ajuda do AFS?

 

Moro dentro da escola onde estudo. Recebi da AFS Brasil todo o suporte pré-intercambio e aqui da AFS Dinamarca também.

 

Você criou uma página para compartilhar a sua experiência. Por favor, fale um pouco sobre ela. Como manter um registro do intercâmbio tem te ajudado?

 

É muito comum as pessoas que vivenciam intercâmbios criarem blogs ou canais do YouTube para registrar sua rotina. Sempre gostei muito de escrever, mas queria fazer algo diferente. Quando embarquei para cá me propus ser uma página em branco para que eu pudesse extrair o máximo de aprendizado possível sobre essa experiência. A cada dia aqui percebo coisas novas e correlaciono com o Brasil ou mesmo com a própria vida. Assim quis compartilhar essas reflexões através de um blog, o Sonhos da Pati, uma forma de compilar em só local os aprendizados e compartilhar com quem se identifica. A proposta não é criar um canal para milhares de seguidores, mas sim um espaço de conteúdo sobre como as experiências são importantes para o nosso crescimento, ainda mais se você refletir sobre o impacto delas na sua vida e na realidade das pessoas ao seu redor.

 

Você convive com pessoas de diferentes nacionalidades? Se sim, o que acha desta mistura multicultural durante os estudos? Quais são as vantagens?

 

Tenho colegas da Bélgica, França, Gana, Costa Rica, EUA, Canadá, Noruega, Nepal, Dinamarca e até refugiados da Síria. Uma diversidade incrível. As culturas são muito diferentes, o que para nós Brasileiros é falta de educação para eles é normal, como por exemplo assoar o nariz na mesa, mas o inverso também é verdadeiro, aqui o normal é cumprimentar as pessoas apenas com apertos de mão, os tradicionais abraços e beijos dos brasileiros são muito inconvenientes na visão dos europeus, por exemplo. Mas esse é o espaço para um exercício de empatia e respeito, não de julgamento, aqui é nítida a percepção que todos somos diferentes. Desconstruímos muitos paradigmas e mesmo pré-conceitos sobre outros países. Aqui somos todos diferentemente iguais, cada um com sua cultura todos juntos no pilar do respeito.

 

 

O que você está achando da Escandinávia? Como é a cultura local? O que você mais gosta na Dinamarca? E a o que foi mais difícil de se adaptar?

 

A Dinamarca é incrível. O país tido como o mais feliz do mundo, numa mistura de pesquisa de qualidade de vida, educação, saúde e meio ambiente, me traz um novo aprendizado a cada dia. Sim, é uma cultura muito diferente, a vida dos escandinavos beira a perfeição. Horas de trabalho reduzidas, pontualidade, educação e saúde gratuitas e de qualidade. Com certeza o que mais gosto aqui é a vida saudável, coisa que para mim é difícil e manter no Brasil. Mas tem o outro lado, descobri aqui muitas coisas valiosas da terra tupiniquim que passavam despercebidas, como a relação afetiva dos amigos e familiares, o jeito educado de falar – pode não parecer, mas somos muito educados – a positividade das pessoas, e muito mais. A saudade de casa é grande, mas para um intercâmbio é preciso foco para viver cada segundo aqui e compreender que em breve você vai retornar para casa. Tenho sido muito feliz aqui, me doado para essa experiência e aprendido a cada novo amanhecer na terra dos vikings.

 

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SOBRE O AUTOR

Entrevista: programa de intercâmbio de Estudos Culturais na Dinamarca

Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.

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