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Entrevista: Estudar mandarim na China

Caroline cursou um semestre na Universidade de Hubei, na China, para aprender o mandarim; ela também tem uma experiência de intercâmbio nos EUA

Entrevista: Estudar mandarim na China
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Caroline Caetano é uma bióloga de 25 anos do interior de São Paulo. Atualmente, ela cursa um mestrado de Ciências no departamento de endocrinologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Durante a sua graduação na UNESP, ela fez um intercâmbio na China para estudar mandarim na Hubei University, em Wuhan. Saiba como foi a experiência, o difícil aprendizado do idioma e a adaptação à cultura chinesa.

 

Como surgiu a oportunidade de fazer o intercâmbio na China?

 

Na época eu estava fazendo minha graduação na UNESP e a universidade tinha criado um convênio com a China, o Instituto Confucio (que existe em várias cidades e não só na UNESP). Os alunos das UNESPs poderiam fazer aula de mandarim com uma professora chinesa sem pagar nada dentro da faculdade. Eu comecei a fazer as aulas e gostei muito, muitas pessoas foram desistindo durante o curso, então quando completei um ano minha professora me avisou que tinha aberto um edital para se candidatar para ter aulas de mandarim na China. Eu poderia aplicar por seis meses ou um ano, resolvi escolher o edital de seis meses.

 

Como foi o aprendizado do idioma?

 

Eu já fazia mandarim por um ano, porém não sabia quase nada, era só uma vez por semana por duas horas. Para um idioma tão diferente, isso não é o suficiente, além disso, nas aulas eu era muito mais interessada em aprender sobre a cultura do que aprender a língua mesmo.

 

Como foi o processo de inscrição no intercâmbio? O que você precisou providenciar?

 

Eu tive que escrever uma carta em mandarim falando o porquê gostaria de estudar na China, minha professora de mandarim me ajudou muito, e entregar uma cópia do meu passaporte, só isso. Na minha época, 40 pessoas se candidataram e todas passaram. Nós recebemos uma bolsa do governo chinês por mês e morávamos em um hotel dentro da universidade.

 

E como foi o processo para tirar o visto de estudante?

 

Foi bem tranquilo, quando as cartas de aceite da universidade chegaram, levei ao consulado Chinês e paguei uma taxa que na época (2013) era de 100 reais.

 

Em qual cidade e em qual universidade você estudou na China? Como era a sua rotina de estudos?

 

Eu morei em Wuhan, na província de Hubei, minha universidade era a Universidade de Hubei, (Hubei University ou Hubei Daxue). Eu tinha aula de segunda a sexta das 8 as 11h30 da manhã. Tarde e noite eram livres, porém tinha muita lição de casa, muita! E sempre a universidade arrumava algo para nós participarmos, como competições de alunos estrangeiros, semana da cultura brasileira, no geral não sobrava muito tempo livre. No final do curso fiz uma prova de proficiência para o nível intermediário, lembro que na época estudei bastante.

 

 

Quanto tempo durou o seu intercâmbio? Como foi a sua adaptação à China?

 

Meu intercâmbio foi de um semestre letivo, ou seja, cinco meses. Foi bem difícil me adaptar, principalmente nos primeiros meses, acho que hoje eu não sofreria tanto, pois me conheço melhor, mas na época foi difícil, era minha primeira viagem ao exterior. Dentro do meu campus tinha um curso para chineses de como ensinar mandarim para estrangeiros e acabei fazendo uns amigos que faziam este curso. Eles me ensinaram bastante sobre a língua e cultura chinesa, aprendi coisas com eles que não se aprende em sala de aula, como pintura chinesa, leitura de mão, como se comportar, como eles se divertem...

 

Meus professores me faziam estudar muito, muitas vezes não saía de casa porque não dava tempo de terminar toda a lição. No dia seguinte eles checavam se eu havia feito minha tarefa, o sistema de ensino é muito rígido quando comparado com o brasileiro. Mesmo assim, com o meu mandarim de cinco meses de estudo, eu só consigo sobreviver na China, ainda não posso ter uma conversa normal, hoje eu teria coragem de sair sozinha, mas nos meus primeiros meses eu não saia, pois me sentia analfabeta e tinha medo de me perder.

 

Quais as diferenças mais marcantes entre os costumes brasileiros e chineses?

 

A China é um país muito diferente, nada lá era parecido com o Brasil. A comida é boa, mas comer todo dia enjoa e comidas ocidentais são caras,  então  era algo importante com o qual eu tinha que me adaptar e achar comidas chinesas que eu gostasse (amei a berinjela lá). Eles comem macarrão no café da manhã, não tem salada, tudo é cozido e eu sempre comprava coisas erradas no supermercado, comprava doce achando que era salgado e vice-versa. Eles não são acostumados a ver pessoas estrangeiras, pelo menos não na cidade que eu fiquei, então muita gente me parava na rua para tirar foto de mim, às vezes nem me pediam ou então vinham falar em inglês comigo para treinarem o inglês deles mesmo sem saber qual a minha nacionalidade. Outra coisa que me chamou atenção, eles não usam blusinhas de alça, pois ombros são sexy... Era difícil achar um sapato que me servia, isso porque uso número 37. Eles estudam muito e trabalham muito, minhas amigas com 20 anos de idade nunca tinham saído para dançar ou passado maquiagem. Facebook e Youtube são bloqueados no país todo. Era muita coisa diferente para me acostumar e os chineses não são tão abertos como brasileiros, porém quando você faz amizade com um eles são muito amáveis.

 

Você já fez outros intercâmbios? Se sim, onde e como foi a experiência?

 

Sim, eu fiquei seis meses nos EUA e voltei agora em janeiro, foi muito bom. Quando eu voltei da China, eu achava que o Brasil não tinha cultura, pois na China são 4000 anos de tradição e eles são muito tradicionais, respeitam e têm muito orgulho de sua cultura. Porém, quando eu voltei do EUA, tive a visão inversa, eu achei que o Brasil tem bastante cultura, pois os Estados Unidos são um país muito diverso com muitas etnias ainda o colonizando, são várias culturas em um lugar só.

 

 

Morar lá foi muito bom, conheci americanos maravilhosos, pessoas muito gentis que queriam me conhecer e saber da minha cultura e me mostrar as deles. Tenho certeza que fiz amigos para a vida toda, não esperava tanta gentileza lá. Teve uma vez que estava indo para a faculdade na neve a pé, pois os ônibus não estavam passando devido às condições climáticas, e uma moça parou o carro e perguntou se eu queria carona. Ela ficou tão preocupada comigo que me deu seu cartão para, na volta, eu ligar e ela me buscar, não queria que eu voltasse a pé no meio de tanta neve. E tiveram muitas situações similares, achei os americanos muito hospitaleiros. 

 

A comida também era diferente, mas nem tanto quanto a da China, nossa cultura é muito próxima e a língua bem mais fácil. Em vários momentos me vi em filmes americanos e eu achava isso sensacional. Fui para o EUA também para estudar, mas não posso falar muito como era a relação professor aluno, pois meu orientador era chinês.

 

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SOBRE O AUTOR

Entrevista: Estudar mandarim na China

Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.

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