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França: Destino de Estudo

Entrevista: mestrando brasileiro explica sobre a cultura e a academia francesa

O jornalista Saulo explicou sobre a cultura acadêmica francesa, a globalização do país e a dificuldade de encontrar uma acomodação na França

Entrevista: mestrando brasileiro explica sobre a cultura e a academia francesa
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O paulista Saulo de Assis tem 27 anos e é jornalista, tradutor e intérprete. Atualmente, está cursando o Mestrado em Ciências da Comunicação e Informação na Universidade Bordeaux Montaigne, na França. Em entrevista ao Hotcourses Brasil, o intercambista explicou sobre a cultura acadêmica francesa, a globalização do país e a dificuldade de encontrar uma acomodação. Leia a conversa com Saulo a seguir e se inspire com a sua experiência!

 

Como e por que você se decidiu pelo mestrado na França?

 

A intenção de realizar meu mestrado na França surgiu a partir da necessidade pessoal de aprofundar meus conhecimentos teóricos em Ciências da Comunicação, além da possibilidade de ter um contato direto com a academia francesa, conhecida por seu caráter crítico-reflexivo, pelo seu rigor e por ter formado muitos pesquisadores notórios em minha área, como Pierre Bourdieu, Dominique Wolton, Armand Mattelart e Roland Barthes, um dos fundadores da Sociedade Francesa das Ciências da Informação e Comunicação. Sendo assim, acredito que minha maior motivação para escolher a França como país para desenvolver meus estudos foi sua tradição e notoriedade acadêmica.

 

O seu curso é lecionado em inglês ou em francês? Você já tinha fluência no idioma? Precisou prestar alguma prova de proficiência para a admissão no curso?


Durante o primeiro ano de meu mestrado, todas as disciplinas foram ministradas em francês. Para que o aluno estrangeiro não-francófono seja aceito em uma instituição de ensino superior francesa, é preciso atestar por meio de prova de proficiência o conhecimento no idioma (seja francês ou inglês, pois alguns cursos são total ou parcialmente oferecidos em inglês*). Normalmente, as instituições na França exigem os níveis B2 ou C1 (conforme o Quadro Comum Europeu). As provas mais aceitas na França são o DELF (Diploma de Estudos em Língua Francesa) e TCF (Teste de Conhecimento de Francês).

 

No meu caso, optei por realizar o TCF, e o resultado que obtive foi suficiente para que eu fosse aceito na Universidade que estudo hoje. No momento em que prestei tal prova, tinha um conhecimento básico do idioma, porém não estava de modo algum fluente. No entanto, havia me preparado para realizar o teste, estudando sua estrutura, tipo de questões e fazendo simulados. Assim como ocorre em demais provas de proficiência, o conhecimento no idioma não é determinante para a obtenção de um bom resultado, pois é preciso que o candidato esteja familiarizado com a prova e possua também a capacidade de responder questões de maneira ágil e, ao mesmo tempo, com muito cuidado e atenção.

 

Como é a cultura acadêmica na França e as suas principais diferenças em relação à brasileira?

 

Inicialmente, é preciso destacar que o acesso ao ensino superior na França é garantido a todos os cidadãos por meio da constituição francesa (tal direito é ampliado aos estudantes estrangeiros). Após a aprovação no BAC (Baccalauréat, prova realizada pelos franceses ao final do ensino médio que atesta a aptidão do aluno para acesso ao ensino superior), os calouros podem optar pelo curso que decidem estudar na graduação, que tradicionalmente tem a duração de três anos. Além das universidades públicas, nas quais os alunos pagam apenas a cotização (taxa simbólica de cerca de EUR 250,00/ano letivo), existem as Grands Écoles e os Instituts Supérieurs, instituições privadas que chegam a cobrar até EUR 50.000,00/ano letivo).

 

Apesar de atualmente existirem novas opções de graduação de menor duração e que preparam o aluno para o mercado de trabalho, a graduação francesa (chamada de Licence) está tradicionalmente focada no desenvolvimento do referencial teórico dos estudantes. Sendo assim, boa parte dos alunos que concluem a Licence partem para o Master, período de pós-graduação de até dois anos no qual os alunos terão a oportunidade de desenvolver suas competências profissionais. Caso o estudante ingresse no Master com o objetivo de se tornar um pesquisador, seu estudo equivale a um Mestrado no Brasil. Por outro lado, se o intuito do aluno for desenvolver suas habilidades profissionais para posterior ingresso no mercado de trabalho, seu estudo terá a mesma equivalência de uma pós-graduação.

 

Observe neste ponto uma das principais diferenças da cultura acadêmica francesa em relação ao Brasil: a graduação brasileira, que possui normalmente uma duração maior que a francesa, contempla o desenvolvimento de competências profissionais, enquanto que na França tal etapa está consagrada ao Master. Após o Master, os estudantes que têm o objetivo de se tornarem pesquisadores podem cursar o Doutorado (Doctorat), etapa com duração de três anos e cujo processo de seleção é mais rigoroso se comparado ao Master e ao Licence. Ainda em relação à estrutura acadêmica francesa, é preciso destacar que as aulas no Licence e no Master podem ser as chamadas CM (Cours Magistraux – aulas teóricas) ou TD (Travaux Dirigés – aulas práticas ou destinadas à realização de exercícios). A dinâmica das duas aulas é bem diferente, e nos primeiros anos de graduação é comum que as aulas teóricas sejam ministradas em grandes auditórios. Normalmente, os alunos de Licence realizam mais provas, enquanto no Master a preferência é por trabalhos escritos e apresentações orais.

 

Em relação às notas atribuídas, que vão de 0 a 20, os docentes são muito rigorosos, raramente concedendo valores acima de 18. É importante que o aluno tenha uma nota geral (média de todas as disciplinas) acima de 14, o que representa o conceito Bien (Bom). Em relação à concessão de bolsas de estudo, o governo francês analisa sobretudo critérios socioeconômicos, porém existem outras opções de bolsas dedicadas exclusivamente a alunos estrangeiros.

 

 

Como é a sua rotina de estudos?

 

Estudo na Université Bordeaux Montaigne, instituição pública francesa destinada às Ciências Humanas e que anteriormente recebia o nome de Université Michel de Montaigne Bordeaux III. O campus da universidade está localizado em Pessac, cidade no limite de Bordeaux e que integra a aglomeração bordelense. Não possuo uma rotina fixa de estudos, pois minha grade horária é variável (em uma determinada semana, tenho aulas pela manhã e no período da tarde, o que pode ocorrer de modo diferente na semana seguinte). Entretanto, procuro conciliar minhas atividades acadêmicas com minha rotina profissional. De modo geral, posso dizer que minha rotina de estudos contempla a leitura de conteúdos pertinentes a cada disciplina, preparação para as aulas, leituras e estudos relacionados à pesquisa que desenvolvo e realização de apresentações e artigos acadêmicos.

 

Como foi a sua adaptação ao país? O que você acha dos costumes e do povo francês?

 

Minha adaptação na França ocorreu de modo tranquilo, pois já morei no país por um curto período em 2013. Acredito que as diferenças entre o Brasil e a França estão menores do que antigamente, muito em virtude da acentuação do processo de globalização. Tal característica pode ser vista em situações triviais, como a presença das mesmas marcas e produtos em supermercados brasileiros e franceses. No entanto, é inegável a diferença cultural entre os dois países, considerando as distâncias, a história e a formação da população.

 

Inicialmente, gostaria de destacar que a percepção de que o povo francês é arrogante, blasé e antipático não condiz com a realidade. Muitos turistas que visitam Paris podem ter tal impressão, pois alguns parisienses são por vezes antipáticos. No entanto, ao visitar demais regiões francesas, o estrangeiro pode constatar que tal percepção não se sustenta. É preciso ter em mente que Paris possui menos de 2,5 mi de habitantes, enquanto a França toda é habitada por mais de 60 mi de pessoas. Certamente, o francês pode não ser tão simpático como demais povos, porém a maior parte procura agir com educação e atenção.

 

Atualmente, é um pouco desafiante falar dos costumes franceses, pois o país é, desde o século passado, terra de muitos imigrantes, entre francófonos e não-francófonos. Do mesmo modo que ainda existe a clássica imagem do francês carregando uma baguette embaixo do braço, é possível encontrar muitos restaurantes que vendem kebab para os imigrantes de origem árabe. Considerando o atual contexto geopolítico mundial, não me parece possível afirmar que todos os franceses e imigrantes vivem na mais perfeita paz e harmonia, porém acredito que o tratamento despedido aos imigrantes na França não é tão ríspido e por vezes calcado em preconceitos como observa-se em demais países.

 

Não obstante a inserção de múltiplos costumes advindos do processo migratório, acredito que o povo francês consegue manter vivo muitos de seus costumes, como sua relação íntima com a gastronomia, sua educação e atenção, a cultura do vinho e seu espírito fraternal e igualitário, calcado nos ideais de LibertéÉgalité e Fraternité, que norteiam o país desde a Revolução Francesa.

 

Onde você mora? Como conseguiu encontrar a sua acomodação na França? A sua universidade ajudou a encontrá-la?

 

Atualmente, moro em um apartamento na cidade de Bruges, que também integra a aglomeração bordelense. Encontrar uma acomodação na França não é tarefa das mais fáceis, pois as cidades que concentram um maior número de Instituições de Ensino Superior não possuem muitas opções de moradias, quartos e residências disponíveis. Este problema não ocorre somente com estudantes estrangeiros, mas também com franceses, que pessoalmente já me relataram as dificuldades em encontrar uma residência para alugar na França. Soma-se a esta questão as múltiplas exigências de agências imobiliárias para locação de casas e apartamentos, que se tornam barreiras na maioria das vezes intransponíveis para estudantes estrangeiros. O governo francês oferece opções de moradias universitárias com valores subsidiados, porém a oferta de quartos e estúdios é menor que a demanda.

 

Normalmente, as universidades francesas contam com um serviço de acolhimento aos estudantes estrangeiros, no qual indicam opções para que o estrangeiro possa encontrar uma moradia. No entanto, a ajuda concedida é de caráter somente instrutivo, devendo o estudante conseguir uma acomodação por conta própria. Esta etapa demanda muita persistência e paciência por parte dos estrangeiros.

 

 

Como foi o processo seletivo? Quais documentos precisou providenciar?

 

Em quase todas as universidades públicas francesas, o processo seletivo ocorre de maneira unificada, por meio da plataforma Campus France. Dentro dela, os estudantes selecionam os cursos de interesse, anexam os documentos acadêmicos exigidos (como diploma e histórico escolar com tradução juramentada) e o nível de proficiência no idioma, inserem as informações pessoais e demais dados solicitados. Posteriormente, é realizada somente uma entrevista, a fim de avaliar a coerência do projeto de estudos do candidato e seu nível de francês. Após esta etapa, as informações dos alunos são disponibilizadas às IES francesas, que selecionam os alunos com base em critérios próprios. As respostas das candidaturas são concedidas online, e o aluno deve em seguida selecionar o curso que foi aprovado e partir para a etapa de obtenção do visto. Trata-se de um processo um pouco cansativo, mas que confere celeridade às candidaturas, considerando que é possível reunir uma série de candidaturas diferentes, evitando que o interessado tenha que enviar documentos e fazer candidaturas separadamente para cada IES.

 

E a solicitação do visto, como foi?

 

Após o aceite de uma IES francesa, o candidato deve passar para a etapa seguinte, que é a obtenção de visto de estudante em um Consulado Francês ou na Embaixada Francesa (conforme o Estado de residência do estudante). Durante este processo, são solicitados documentos que atestem a capacidade financeira do estudante, comprovante de moradia da França, a carta de aceite enviada pela IES, informações pessoais, entre outros dados e documentos. Após o processo de análise por parte da autoridade consular francesa, há a emissão do visto, cuja validade é de até um ano.

 

No período de três meses após sua chegada na França, o estudante deve passar pelo processo de validação do visto junto ao OFII (Escritório Francês de Imigração e Integração). Caso o aluno ainda não tenha concluído seus estudos ao final do visto, é preciso fazer uma solicitação de moradia temporária junto à Préfecture regional.

 

Você trabalha? Onde? Quantas horas você tem permissão de trabalhar no país como estudante?

 

O visto de estudante concedido pela França permite uma jornada de trabalho reduzida, no limite de 60% da carga horária semanal de trabalho francesa (35 horas). No meu caso, presto serviços pela Internet para empresas brasileiras, sem qualquer vínculo com organizações francesas.

 

Você estuda com pessoas de outras nacionalidades? Se sim, o que acha desta mistura multicultural durante os estudos? Quais são as vantagens?

 

Eu estudei durante o primeiro ano do Mestrado com alunos de diversos países, como Costa do Marfim, Moldávia, Gabão e Senegal. A maior parte dos estudantes estrangeiros de meu curso era formada por francófonos, tendência observada em todo o sistema acadêmico francês. Há que se observar ainda a considerável presença de chineses e sul-coreanos na academia francesa. Acredito que tal característica é resultado do incentivo de tais nações à internacionalização acadêmica de seus alunos. É preciso destacar ainda que o sistema acadêmico francês é relativamente aberto aos estudantes estrangeiros, considerando que são cobrados os mesmos valores pagos pelos franceses (o que não ocorre em todas as universidades públicas europeias).

 

Além disso, existem docentes originários de outros países, como Itália, Tunísia e nações francófonas. Acredito que a presença de estudantes e docentes estrangeiros enriquece muito a experiência acadêmica, pois permite uma troca de pesquisas, referenciais teóricos e concepções diferentes que favorecem o desenvolvimento intelectual dos discentes e permitem que a IES acompanhe a internacionalização da educação superior, processo inevitável no globalizado contexto acadêmico contemporâneo. Certamente, existem questões que ainda devem ser desenvolvidas, como a desburocratização de procedimentos referentes à estada de estudantes estrangeiros no país. Ademais, é preciso que a internacionalização seja ampliada no que se refere aos referenciais teóricos empregados por disciplinas, que na maioria das vezes não contemplam estudos de outros países. Trata-se de um processo desenvolvido de maneira consideravelmente lenta, mas que deve se intensificar com o passar dos anos.

 

Nesse sentido, a Universidade que estudo está atenta a tais necessidades, considerando que irá oferecer, a partir deste ano, novas formações que valorizam a multidisciplinaridade e buscam integrar estudos de diferentes origens. O segundo ano de meu Mestrado irá propor, por exemplo, parte de sua formação em inglês, além de abordar temáticas anglófonas no domínio da Comunicação e Informação.

 

Você recomendaria a França como destino de estudo aos brasileiros que estão considerando estudar no país? Por quê?

 

Acredito que a França é um excelente destino para os brasileiros que buscam um aprimoramento em seus estudos. A tradição da academia francesa e o rigor das IES do país permitem que os estudantes tenham uma experiência acadêmica muito enriquecedora, tanto no ponto de vista teórico quanto na perspectiva cultural. Independentemente do país escolhido pelo estudante, haverá certamente um período de adaptação e um choque de culturas, porém ao final do processo o estudante sairá com uma grande bagagem cultural e uma visão de mundo mais crítica e compreensiva. Por fim, é preciso que os interessados não deixem que o desgaste das burocracias (existentes em todos os países) seja maior que o desejo de ter uma experiência acadêmica no exterior.

 

*As universidades na França têm 456 opções de cursos ministrados inteiramente em inglês. Pesquise-os aqui.

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SOBRE O AUTOR

Entrevista: mestrando brasileiro explica sobre a cultura e a academia francesa

Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.

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