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Itália: Destino de Estudo

Entrevista: brasileira compartilha os benefícios da experiência de estudos na Itália

Concluindo o seu curso no Istituto Universitario Sophia, na Itália, Katyusia explica como a experiência expandiu suas fronteiras

Entrevista: brasileira compartilha os benefícios da experiência de estudos na Itália
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Formada em Publicidade e Propaganda e especializada em Gestão de Negócios com ênfase em Marketing, Katyusia Meurer Rodrigues, 33, de Nova Aurora, Paraná, resolveu dar um novo rumo à sua vida profissional e pessoal. A escolha: estudar na Itália! Ela está concluindo um curso de Cultura de Unidade com ênfase em Política no Istituto Universitario Sophia. Em entrevista ao Hotcourses Brasil, Katyusia pondera sobre o resultado positivo desta experiência intercultural.

 

Como surgiu a ideia de estudar na Itália? Você já tinha proficiência no italiano?

 

Surgiu depois de uma crise existencial. Era feliz no meu trabalho, mas estava em crise com a forma que estava conduzindo meus caminhos, não parecia mais fazer sentido continuar naquele ritmo e com aquela finalidade. Entre as buscas para entender tudo isso e minhas paixões, reencontrei uma amiga que tinha acabado de voltar de Loppiano (uma cidadezinha distrito de Figline Valdarno que fica na Toscana – Itália), e nesse reencontro ela me contou tudo que viveu lá. Ouvir sua história me fez muito feliz, mas com o passar do tempo entendi que aquela felicidade era também uma das respostas para minhas buscas e decidi sonhar com a terra do macarrão.

 

De italiano nesse período eu sabia só que “mangiare ti fa bene” e que a pizza sempre vai direto para o coração e não para a barriga. (Risos) Mas assim que as ideias se organizaram comecei a fazer aulas particulares e explorar ferramentas online (como Duolingo). Foram interessantes essas iniciativas, pois me deram vocabulário e o mínimo de noção para me ambientar, mas não posso negar que sofri no início das aulas, ainda mais porque, como todas as línguas com raiz latim, o italiano parece muito com o português, mas a estrutura e todo o resto é muito diferente.

 

Em qual universidade italiana você estuda? Qual é o seu curso?

 

Istituto Universitario Sophia é uma universidade do Movimento Focolares, meu curso foi Cultura da Unidade com ênfase em Política.

 

 

Como é o curso?

 

O curso é interdisciplinar, intercultural e em todos os cursos os alunos podem incluir disciplinas extras. A minha composição foi: Economia, Gênesis e Figura da Racionalidade Científica Moderna, História e Paradigma da Lógica, Estrutura Crítica do Pensamento Ideológico, História do Pensamento Filosófico, Intercultura, Pedagogia da Pessoa e da Comunidade, Fundamento Político, Ciência Política, Teoria Política, Teologia Fundamental, Teologia - Interpretação dos Textos Bíblicos, e São Paulo e Urbanismo.

 

Como se pode ver pelos nomes, parece um mix muito teórico, mas a forma e proposta de vida nesse ambiente provocam em nós, alunos, uma constante vivência de tudo que ouvimos na sala de aula mesmo quando a metodologia não é estilo “aula show”. Muito pelo contrário, foram aulas tradicionais e expositivas. A novidade para mim foram as provas no final de cada módulo. Tivemos sessões de provas orais (método mais utilizado nas universidades italianas), foram momentos de muita tensão, não posso negar, mas volto para casa com a lembrança de que as provas foram meus momentos ápices com essas disciplinas, cada uma delas me deixou uma marca e uma transformação em meu jeito de pensar.

 

Como foi o processo de inscrição e seleção no curso? O que você precisou providenciar? (Documentos, histórico acadêmico, etc.)

 

Essa resposta é longa... (Risos.)

O processo começou com várias conversas por skype com os responsáveis pelos novos alunos, depois de entender bem como funciona a vida na Universidade, valores, enviar a solicitação de mátricula e receber a resposta do conselho administrativo sobre minha aceitação, veio a parte da documentação, me pediram tudo que comprovasse meu percurso acadêmico e alguns extras como:

 

  • Histórico do fundamental, universitário, grade curricular com a informação do crédito de cada matéria;
  • Comprovantes de renda, comprovantes de residência e como se trata de uma Instituição regida pelos critérios do Vaticano e principalmente porque eu sou católica, me pediram cartas de recomendação do Bispo da Diocese. Importante destacar que essa solicitação não é um impedimento e muito menos restrição, a riqueza de Sophia está inclusive no diálogo interreligioso. Tivemos histórias lindas, entre ateus, budistas, mulçumanos, protestantes e tantas outras denominações;
  • Voltando aos documentos: depois do envio desses documentos por correio a Universidade me enviou as declarações necessárias para a emissão do visto de estudos que fiz no Consulado Italiano de São Paulo, tudo sozinha sem intermediações. É sempre possível basta se informar e organizar bem.

 

Para o visto sempre são necessários os formulários disponíveis no site do consulado, comprovante de renda, plano de saúde entre outros também listados no site.

 

Uma coisa que para mim foi muito interessante nesse processo foi descobrir que o governo brasileiro e italiano tinham um acordo sanitário e que quem trabalhou por um determinado tempo com registro em carteira tem o direito de um ano de assistência na Itália (plano de saúde), economia super bem vinda. O duro é que a informação sobre esse processo não aparece tão clara, nem mesmo o pessoal que trabalha nos departamentos públicos sabe orientar. Mas é muito tranquilo para fazer, basta comprovar o tempo trabalhado e fazer a solicitação diretamente no ministério da saúde mais próximo.

 

Depois de todo esse processo no Brasil, assim que cheguei na Itália, precisei entrar com a solicitação do Permesso de Soggiorno, documento necessário para todo estrangeiro que permanece mais de três meses na Itália. Pelo menos funciona assim para nós brasileiros, afinal existem vários acordos entre os países. Para o Permesso de Soggiorno precisei:

 

  • Retirar o kit Permesso di Soggiorno nos correios da Itália que não se chama correios e sim Posta. O kit é gratuito.
  • Depois do preenchimento do Kit precisei enviar pela Posta com cópias do plano de saúde, comprovante de renda, declaração da matrícula (meu caso era de permissão para estudos) e cópia do passaporte. No momento do envio é cobrado o serviço de envio e a solicitação do Permesso, nesse ano, custou 143,00 euros.

 

No momento de envio já informam qual é o dia que se deve comparecer na Questura (como Policia Federal). Esse processo é demorado e no mínimo devemos ir duas vezes a Questura, a primeira para entregar fotos e fazer impressão digital e, se tudo correr bem, a segunda para retirar a carteira do Permesso de Soggiorno e pronto, você estará tranquilo para transitar no período de um ano na Itália e território Scheingein. Vale lembrar que meu cartão chegou depois de quatro meses da solicitação, menos mal que entregam comprovantes de todo o processo que é valido até que a carteira não chega.

 

Como foi a sua adaptação à Itália e ao sistema de ensino do país?

 

Gosto muito de descobrir novas culturas e novos sabores, então a parte de adaptação à Itália teve esse agravante favorável. Sobre o sistema de ensino tive muitas dificuldades, pois meu percurso acadêmico foi totalmente pragmático/prático, estudei disciplinas para aprender a trabalhar. A metodologia utilizada pelo Istituto Sophia é a da Universidade de Bologna, um método bastante utilizado na Europa, com fortes bases teóricas.

 

Para mim foi um choque ter que responder perguntas do tipo “Qual era o pensamento de Platão sobre a Política”, como eu poderia responder como alguém que eu tinha acabado de conhecer pensa sobre alguma coisa? (Risos.) Vale ressaltar que estou falando no meu percurso, sei que muitos intelectuais brasileiros não considerariam meu comentário. Mas a verdade é que a dificuldade em responder esse tipo de pergunta me levou a descobrir que eu não tinha um método de estudo. Nunca tinha precisado de um método até aqui. Então depois de noites mal dormidas e muito quebra-cabeça, encontrei meu caminho e meu jeito de estudar. Não sei se já estou pronta para responder perguntas sobre Platão, mas no final das contas minhas notas foram boas, então posso concluir que os resultados foram positivos nesse aspecto.

 

Estou muito feliz com a base teórica que recebi, volto para casa mais curiosa e com mais vontade de aprender.

 

 

Quais as principais diferenças entre a cultura italiana e a brasileira? O que você mais gosta na cultura local e o que você mais estranha?

 

Minha impressão sobre os italianos é agridoce. Conhecendo um pouco mais da cultura, percebi que gosto do jeito que nós brasileiros resolvemos muitas coisas, somos muito práticos e diretos em alguns aspectos de ordem. Digo de tudo, desde uma decisão sobre o que fazer de almoço até processos burocráticos como aquele que descrevi sobre Permesso de Soggiorno.

 

Mas devo confessar que a Itália já está no meu coração, volto para casa contaminada, com mais conceito histórico, com mais conceito de beleza da casa, de roupas e de espaço, e, é claro, com mais exigência aos cuidados culinários. Se tem uma coisa que Italiano não abre mão é da sua culinária exatamente como ela é, ketchup na pizza sempre será uma agressão pessoal e não adianta argumentar que a situação será ainda mais crítica (eu tentei!).

 

A minha primeira impressão foi que italianos são bravos e ranzinzas, mas é só passar um pouquinho mais de tempo juntos para perceber que é só fachada. Eles tem um humor irônico sensacional, são dispostos a ajudar, a brigar pela justiça, a discutir sobre situações que presenciam mesmo quando não tem nada a ver com elas só com a motivação de ajudar.

 

E uma das coisas que mais me impressionou é a riqueza histórica desse povo. Qualquer pergunta que fiz sempre era respondida com riqueza de detalhes e contexto da época como se fosse um pedaço da história pessoal, por todos sem limites de idade, desde as crianças aos mais velhos. Outro dia estava em Catânia, na Sicília, com uma amiga e o seu pai que me explicava sobre as erupções do Vulcão Etna; ele falava com uma proximidade de fatos que parecia que tinha acontecido na semana anterior, quando estávamos falando de tantos 1.000 anos antes de Cristo. (Risos.)

 

Você estudou com pessoas de outras nacionalidades? Como foi a experiência? Você acha que esta diversidade é vantajosa para os estudos?

 

Não só estudei como morei com pessoas de outras nacionalidades. Minha casa era composta por um mix interessantíssimo do Egito, Paquistão, Bolívia, Congo, Madagascar, Itália e Brasil. Em Sophia, existem no mínimo umas 35 nacionalidades, um pedaço do mundo. Acho que diversidade é uma das vantagens mais incríveis em um processo formativo. Esse foi um dos motivos da minha escolha por Sophia. Não é fácil, porque nos pede tempo, paciência e muitas vezes lágrimas. Pensei que eu era tolerante e que sabia respeitar os outros até viver essa experiência e precisar rever todos os meus conceitos. Vivendo todos os dias com essa diversidade, pude perceber que resolver pequenos conflitos, aceitar o outro por mais que faça coisas que me irritam ou que não concordo me levou a dar mais espaço aos outros e o melhor: reconhecer a beleza que tudo isso provoca no meu jeito de ser. Chego a conclusão de que, se entre as nações fizessem mais esse tipo de exercicío formativo, teríamos muito menos intolerâncias e guerras.

 

 

Você conseguiu uma bolsa de estudo? Se não, como financiou os estudos?

 

Consegui um desconto diretamente da universidade. Meu financiamento foi com a grana das rescisões dos meus empregos anteriores. Não sei se foi a melhor das decisões, se precisasse decidir hoje por essa situação teria feito diferente nesse aspecto, pois gostaria te ter feito também o segundo ano e meus recursos deram só para o primeiro. Existem milhares de Fundações ao redor do mundo dispostas a dar bolsas de estudos, mas a maioria delas pede um tempo mínimo antes da matrícula, como a fundação Caritas da Suíça, que oferece bolsa para estudantes da América Latina, mas que pede que a solicitação de bolsa seja feita um ano antes.

 

Minha dica para quem quer fazer esse tipo de experiência é se planejar com um bom tempo de antecedência; procurar muito por essas fundações pode ser um pouco trabalhoso, mas é muito possível. ;)

 

Por qual tipo de acomodação estudantil você optou? A sua universidade te ajudou a encontrar um lugar para morar?

 

Optei por morar na universidade, Sophia tem apartamentos disponíveis no mesmo prédio. A proposta de Sophia é de vida e estudos, por mais que o estudante opte por morar fora de Sophia, o departamento de acolhida auxilia a encontrar um lugar ou no mínimo acolhem na universidade até que a situação se resolva. Vale ressaltar que Loppiano é um lugar afastado, é uma experiência de campo, digamos assim. Para mim, morar na universidade foi muito confortável em todos os aspectos.

 

Você recomendaria a Itália aos brasileiros que a estiverem considerando como um destino de estudo? Por quê?

 

Minha experiência na Itália foi incrível, então é óbvio que super recomendo! O estudo por aqui é rico em criticidade, história e arte. A praticidade do povo brasileiro pode ser ainda mais enriquecida com fundamentos críticos e teóricos oferecidos pelas Instituições Italianas. Isso no mínimo contribui para continuarmos com ainda mais criatividade e possibilidades. Misturar essas duas culturas, no mínimo, resulta em novos sabores e quando se fala em sabor todo mundo precisa de um pouco macarrão ou uma lasanha bem feita no menu para ser feliz!

 

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SOBRE O AUTOR

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Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.

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