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Nova Zelândia: Destino de Estudo

Entrevista: bolsista do Ciência sem Fronteiras na University of Otago, na Nova Zelândia

O gaúcho Maurício Schell conversou sobre o período em que estudou Fisioterapia na University of Otago como bolsista do Ciência sem Fronteiras

Entrevista: bolsista brasileiro na University of Otago, na Nova Zelândia
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Maurício Schell é de Porto Alegre. Atualmente concluindo o curso de Fisioterapia na Universidade de Ciências da Saúde de Porto Alegre, o gaúcho conseguiu cursar parte de sua graduação na Nova Zelândia pelo programa Ciência sem Fronteiras. Schell foi estudante da University of Otago, em Dunedin, por aproximadamente 14 meses.

 

Ele conversou com o Hotcourses Brasil sobre a experiência de estudar em uma universidade neozelandesa e de se acostumar com a cultura do país.

 

Por que você se decidiu pela Nova Zelândia como destino de estudo?

 

Na verdade, lá no começo a Nova Zelândia (NZ) não foi minha primeira escolha. Quando concorri pela primeira vez para a bolsa de graduação sanduíche do Ciência sem Fronteiras (CsF), apenas o edital para a Nova Zelândia estava aberto. Concorri, mas não consegui ser selecionado nesse primeiro edital. Segui me preparando para a seleção que abriria no semestre seguinte.

 

Quando o novo edital foi lançado havia muitas outras opções de países, mas naquela altura do campeonato já estava de cabeça feita (culpa dos meses prévios que passei pesquisando sobre o país). Tudo que eu via era simplesmente de se apaixonar, mesmo que de longe. Eu acho que plural, majestoso e peculiar são adjetivos que servem bem para resumir quase tudo relacionado à terra dos Kiwis (como é conhecido o povo de lá). Pode até parecer meio piegas, mas acho que no fundo, foi a NZ quem me escolheu.

 

E especificamente a  University of Otago, como foi que a escolheu?

 

Bem, na época o CsF exigia que eu me candidatasse a duas universidades por ordem de preferência. Acontece que apenas duas universidades neozelandesas, das oito existentes, tinham o meu curso. Isso já reduziu o número de possibilidades e facilitou muito a escolha.

 

A alternativa à University of Otago era AUT, que fica em Auckland. Auckland é a maior cidade do país, semelhante a Porto Alegre em população. Esse era um fator que jogava em favor de Otago. A universidade de Otago fica em Dunedin, uma cidade bem mais pacata (pouco mais de 100 mil habitantes) ao sul da ilha sul. Eu não estava muito disposto a atravessar o mundo para viver em uma cidade grande, sabendo que algumas das características que mais me chamavam atenção nas duas ilhas era o clima bucólico.

 

Aliado a isso, tinha outros grandes fatos que me fizeram optar por Otago. A School of Physiotherapy of Otago é uma das mais antigas do mundo. Além de altos índices de educação, que é um atributo da educação em geral por lá, e a tradição da escola de fisioterapia, um dos pesquisadores e professores lá é um conterrâneo meu. Um amigo em comum nos colocou em contato prévio à minha ida. Isso tudo contou muito na minha preferência por Otago.

 

Como foi o processo seletivo para a bolsa de estudo? Quais documentos precisou providenciar?

 

Precisei fazer meu passaporte, raio-X e exame médico (esses últimos dois com um médico credenciado pela imigração neozelandesa). Fora isso, o programa o governo me exigia nível mínimo de proficiência em inglês comprovado através de TOEFL ou IELTS. Não era nada impossível. Com alguns meses de preparo intensivo eu consegui atingir a nota necessária (mas isso não significa que eu não apanhei bastante no idioma nos primeiros meses lá HAHAHA). Após isso tudo, muitos formulários e inscrições precisaram ser feitas. Foi um processo seletivo bem longo e cansativo, mas correu tudo bem no fim das contas.

 

Qual é o seu curso? 

 

Estou às vésperas de me formar em Fisioterapia. Eu teria concluído ele em 2014, mas acabei realizando o intercâmbio e agora irei me formar no fim desse ano. Eu realmente me sinto muito satisfeito com a profissão que escolhi. Sei das barreiras e dificuldade que tenho pela frente por ser uma profissão relativamente nova e que ainda tem muito a crescer. Por outro lado, isso significa que eu estou fazendo parte dessa construção. E tem sido muito gratificante.

 

Como é a cultura acadêmica na Nova Zelândia, suas principais semelhanças e diferenças em relação à brasileira?

 

Dentro da Universidade as coisas funcionam muito bem, aliás, em geral, tudo funciona muito bem lá. Eles são um povo bem burocrático e seguidor de normas tais como estão no papel. Tamanha seriedade e burocracia podem assustar um pouco no início, mas logo você percebe que tudo flui muito bem. A interação dentro das aulas, laboratórios e aulas práticas é bem menos afetuosa do que aqui no Brasil. O pessoal costuma chegar em ponto para as aulas, fala pouco entre si (antes, durante e depois). Senti um pouco falta disso. Aqui no Brasil o povo interage mais e é mais caloroso. Demora mais lá para tu conseguir ter um contato mais ‘abrasileirado’ com alguém (pessoal não costuma se abraçar muito, por exemplo). Contudo, fora da sala de aula, nos outros ambientes universitários isso já muda mais. Na University of Otago, existem centros de convivências, academias, centros de estudos, viagens, eventos, oficinas artesanais, aulas de dança. Tudo pertencente, fazendo parte da universidade e pensado para os alunos.

 

Mas é claro que outro fator que difere bastante é a relação tempo fora da aula/tempo em aula. De nada adiantaria ter toda essa estrutura para usufruir e ter uma carga horária de quase 30 horas aula por semana. Lá as aulas são de 50 min, dificilmente existem mais de duas aulas seguidas (as minhas eram a grande maioria de apenas 1 aula) e existem sempre aulas práticas (laboratórios) ou de prática com tutores (em uma sala de aula com exercícios). Isso nos dava tempo livre suficiente para poder ir à academia, praticar algum esporte, ter alguma atividade de lazer. Mas junto com o tempo extra-classe voltado para lazer e recreação havia alta cobrança para estudo por conta própria nesse tempo livre. Muitas disciplinas usavam um cálculo de 3 a 4 horas de estudo por conta própria para cada 50 min de aula. Isso é explicado pela quantidade enorme de conteúdo coberto em cada disciplina. Acho que aqui notei muito diferença com o sistema brasileiro. Nossa academia (falando pela minha experiência de estudante de universidade pública) nos toma o dia inteiro com aulas e ainda nos cobra muito estudo extra para cumprir toda a demanda de conteúdo. Isso sobrecarrega o professor, o aluno e cria um aprendizado muito mais passivo e dependente.

 

 

Você podia trabalhar no país? Se sim, com o que você trabalhou?

 

No meu caso eu não pude trabalhar. Quando recebi meu visto, ele veio me possibilitando trabalho de até 20 h/semana, se não me engano. Porém, o regulamento do CsF me proibia de trabalhar, exigindo dedicação exclusiva à vida acadêmica. Mas isso vai depender de cada caso. Eu tinha amigos de outros países que estava fazendo intercâmbio e trabalhavam, pois as regras do intercâmbio deles permitiam.

 

Onde você morou? Como encontrou a sua acomodação na Nova Zelândia?

 

Existem diversas opções de moradia. Desde moradias nos Colleges da universidade, Homestay, Flats da universidade, Flats independentes para se alugar, ou até mesmo apenas quartos de aluguel. Elas variam em preço, estrutura, conforto e serviços. Eu acabei escolhendo uma moradia mais em conta em um Studio Room, como eles chamam. Algo semelhante a uma pensão aqui. Assim que cheguei lá, eu fui para um hostel até encontrar algum lugar onde ficar. Existem sites de busca especializados nisso onde pessoas colocam anúncios de quartos vagos em pensões, lugares para dividir apartamentos e esse tipo de coisa. Mas se você quiser pode sair aqui do Brasil já com um local certo para ficar. Eu escolhi fazer desse jeito mais aventureiro porque queria economizar e conhecer pessoalmente o local onde iria ficar.

 

O que acha da cultura do país? Sua adaptação foi fácil? Como foram as primeiras semanas de intercâmbio?

 

Definitivamente a cultura é uma das coisas mais fascinantes na Nova Zelândia. O país é o resultado da fusão entre os europeus, que chegaram com a colonização britânica, e os Maori, povo nativo das ilhas. Acho que em poucos lugares no mundo há tamanha integração entre colonizados e colonizadores. Os kiwis conseguiram se unir em um povo novo, mantendo e mesclando muitas das duas culturas. Um bom exemplo disso é o Rugby neozelandês. Embora seja um esporte de origem britânica, as influências maoris sobre o All Blacks (famosa seleção neozelandesa de Rugby) são evidentes.

 

Em geral os kiwis são muito hospitaleiros, educados, bem-humorados. São simples e têm um estilo de vida muito prático e despreocupado de viver. Também fiquei com a impressão que estão muito acostumados a receber turistas e por isso sempre estão muito bem preparados para serem ótimos anfitriões.

 

 

Outra coisa que eles sabem muito bem é surpreender com a gentileza. Não foi uma nem duas vezes em que me vi numa enrascada e um morador me foi solícito e prestou ajuda de uma maneira que eu não conseguia nem imaginar.

 

Mas nem tudo foram rosas. Senti muito mais dificuldade com minhas primeiras semanas aperfeiçoando meu inglês (às vezes o sotaque é bem complicado de entender). O clima lá sabe mexer com seu humor como ninguém (especialmente em Dunedin). E a culinária deles não me agradava muito não. HAAHAHA.

 

Quais aspectos da culinária neozelandesa não te agradaram?

 

Em geral eu achava a comida meio sem graça, sabe? Não achava muito saborosa e atraente. Pode ser que muito disso seja devido à um homesickness forte que eu estava passando. Contudo, me lembro que eles tinham um gosto muito grande por doce. As coisas doces eram repletas de açúcar. Às vezes, não incomumente, colocavam frutas doces no meio de lanches salgados (hambúrguer, pizza,…).

 

Você estudou com pessoas de outras nacionalidades? O local onde você morou e a universidade são multiculturais? Se sim, o que você acha disso? Quais foram os benefícios?

 

Sim, o convívio com estrangeiros é intenso. Muitas pessoas vêm de diversos lugares do mundo para estudar e trabalhar na NZ. Lembro que a universidade tem um departamento responsável apenas por prestar auxílio aos estudantes internacionais. Não lembro o número exato dos estudantes internacionais nas universidades do país, mas sei que é um percentual bem impressionante. Nas moradias não era diferente. A casa onde morei era, em sua maioria, ocupada por pessoas de todos os lugares do mundo.

 

Com certeza, esse é um dos pontos mais legais do intercâmbio. Acabei em contato direto com diversas culturas. Isso nos ensina muito a respeitar diferenças, entender como particulares as pessoas são, e acima de tudo, aprender muito mais sobre a sua própria cultura.

 

 

Você recomendaria a Nova Zelândia como destino de estudo para brasileiros que estão considerando estudar no exterior? Por quê?

 

Absolutamente! O país é muito bem preparado para receber estudantes estrangeiros. Além disso, a pluralidade cultural é imensa, as belezas naturais são únicas e de tirar o fôlego, o povo é gentil e atencioso, o país e é seguro e organizado.

 

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SOBRE O AUTOR

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Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.

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