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Entrevista: brasileira viaja por dois anos como nômade digital

O nômade digital viaja o mundo enquanto trabalha remotamente pela internet; conheça a experiência de Marilia neste estilo de vida

Entrevista: brasileira viaja por dois anos como nômade digital
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Nômade digital é um termo tão atual quanto “homeoffice” e “gerente de mídias sociais”, surgidos graças à internet e à mobilidade permitida por ela. Para muitas pessoas insatisfeitas com carreiras trancadas em escritórios, a vida de um nômade digital pode parecer ideal: viajar de país a país, sem ter data ou uma casa para onde voltar. No entanto, deixam de considerar uma parte deste tipo nomadismo: trabalhar – não importa em qual parte do mundo você estiver. Daí vem o nome “digital”, porque o trabalho é remoto, basta ter acesso à internet, além de muita dedicação e disciplina para resistir à tentação de turistar por aí.

 

Mas sobra, sim, muito tempo para conhecer todos os lugares por onde o nômade passa. É o que comprova a experiência de Marilia Fernandes, 28 anos. Atualmente residindo em Londres, a administradora mineira passou dois anos viajando pelo mundo, enquanto mantinha uma empresa de marketing digital.

 

Marilia conversou com o Hotcourses Brasil sobre este estilo de vida e contou como o período de estudos nos Estados Unidos aos 18 anos a preparou para esta experiência.

 

Qual a sua formação? De que parte do Brasil você é?

Eu sou formada em Administração pelo Mackenzie, nasci em Araxa, Minas Gerais. Morei durante a infância e adolescência no interior de São Paulo, depois Rio de Janeiro e São Paulo, capitais. Sim, sou cigana desde bebê.

 

Quando, onde e por quanto tempo você foi au pair?

Fui au pair entre 2006 e 2007. Morei nos Estados Unidos durante um ano. Passei alguns meses em Nova York e depois Nova Jersey.

 

Como foi o seu período como au pair nos Estados Unidos?

Foram muito enriquecedores. Antes de viajar, morava no interior, nunca tinha viajado para fora do Brasil e tinha acabado de completar 18 anos. Não sabia cozinhar, nunca tinha morado sozinha, e nem tinha trabalhado antes então foram muitas novidades ao mesmo tempo. Tive que aprender muita coisa sozinha, em outro país, com outra língua e cultura e, principalmente, sem minha família e amigos por perto. No começo foi um choque, afinal, morava com meus pais e de repente estava com outra família, tinha que trabalhar, com horários, e fazer minha própria comida, mas me adaptei muito rápido a tudo isso e nunca reclamei. Fui com objetivos traçados e mantive o foco de melhorar meu inglês e aproveitar ao máximo independente das dificuldades. Não é fácil morar na mesma casa em que você trabalha, é muitíssimo delicado, mas foram justamente essas dificuldades que me fizeram amadurecer e me tornar mais flexível. Aprendi muita coisa “na marra” durante o programa por ter lidado com situações que um programa só de estudos não proporcionaria, por exemplo. Eu brinco que voltei outra pessoa dessa experiência, mas a verdade é que nunca mais me senti a mesma pessoa.

 

O que você estudou durante este período? O que achou dos cursos?

Fiz um curso de inglês “English as a Second Language” (Inglês como Segunda Língua) no Rockland Community College e um curso de “Business Management” (Gestão Empresarial) no Dominican College. [Os cursos] foram bons, eu não diria que os cursos sozinhos me ajudaram a conseguir a proficiência no inglês, na época eu estudei bastante em casa, ouvia somente música em inglês, assistia muita TV (na minha opinião, uma das melhores formas de aprender) e, claro, morava com uma família americana. Na minha época, pelo menos, com os créditos que ganhávamos não dava pra estudar o tempo todo e o curso acabava sendo mais curto, então precisávamos nos esforçar um pouco a mais também se quiséssemos realmente atingir o objetivo que, claro, era voltar com o inglês fluente.

 

Como surgiu a ideia de criar sua empresa digital? Quais serviços vocês oferecem?

Atualmente sou sócia de duas empresas registradas no Reino Unido. A primeira empresa de marketing digital já existe há alguns anos e foi criada pelo meu marido. Comecei a trabalhar com ele no início apenas para ajudá-lo em algumas tarefas que ele tinha alguma dificuldade e eu tinha mais conhecimento ou maior facilidade. Como deu certo, acabamos nos tornando sócios na empresa. Essa empresa oferece serviços de marketing de afiliados internacionalmente. Além dela, no final do ano passado, decidi que gostaria de fazer algo diferente, queria ter um projeto meu, totalmente separado. Como nos últimos anos adquiri grande experiência no marketing digital trabalhando internacionalmente com diversos países, resolvi abrir a Context Digital, aqui em Londres. A empresa é uma agência de marketing digital que atua com foco no Reino Unido, oferecendo serviços de SEO, PPC management, social media, etc.

 

O que te inspirou a viajar como nômade digital?

Eu sempre fui muito sonhadora e um dos meus maiores sonhos sempre foi conhecer o mundo. Sou muito inquieta e acredito muito na força do pensamento, sempre tive certeza que viajaria para muitos lugares. Quando surgiu a possibilidade de trabalhar online e viajar ao mesmo tempo, não tive dúvidas. Na época tinha um emprego legal em uma multinacional onde adorava trabalhar. Não foi uma decisão fácil, mas optei por realizar um sonho e correr risco de passar por uma instabilidade no futuro. Quando fui, não se falava em nômades digitais no Brasil. Eu só fui descobrir esse termo quase seis meses depois de me tornar “nômade”, não era tão comum para brasileiros...

 

Você se identifica com o termo “nômade digital”?

O termo é novo no Brasil, apesar de ser bem difundido aqui fora, vejo que há bastante confusão sobre o que é ser nômade digital. Eu não me considero nômade digital no momento, pois optei por ter novamente uma casa, com minhas coisas, apesar de continuar viajando bastante e às vezes passar um mês fora com o laptop sempre por perto para trabalhar. Mas passei dois anos da minha vida mudando de país em país, morando no máximo três meses em cada enquanto trabalhava. Tudo o que eu tinha estava dentro de uma mala. Para mim, ser nômade digital é primeiro ter um trabalho que te permita trabalhar remotamente de qualquer lugar do mundo e segundo, não ter casa, não ter para onde voltar, realmente viver com uma mala.

 

 

Você acha que a experiência de ser au pair contribuiu para que você pudesse se tornar uma nômade digital e viajar pelo mundo?

Sem dúvidas, de diversas formas. Eu já falava inglês muito bem quando me tornei nômade, o fato de já ter morado fora e me adaptado a outra cultura me deixou mais confiante para me aventurar por outros países com culturas ainda mais diferentes da minha. Já tinha passado por diversas dificuldades aos 18 anos morando e trabalhando em outro país, então não tinha muito medo do que pudesse acontecer, sabia que conseguiria “me virar”. O inglês foi essencial no meu trabalho e continua sendo já que trabalho o tempo todo com estrangeiros e tenho pouco contato com português no dia a dia do trabalho. Praticamente todas minhas campanhas são feitas em inglês. Além disso, minha experiência fez com que eu tivesse uma visão diferente do mundo. Trabalhar como au pair em outro país é uma grande e excelente experiência quando se é jovem. Sabemos que, no Brasil, não é nada glamoroso exercer trabalho de babá em outros países. Tive que lidar com preconceito até mesmo dentro da minha família. Tudo isso foi muito bom pra mim, me fez amadurecer ainda bem jovem, ser mais aberta e menos preconceituosa. Eu sempre recomendo intercâmbio para todos meus amigos e amigas, principalmente ainda bem jovem, e que incluam experiências de trabalho. O amadurecimento que ganhei com apenas 18 anos foi de valor inestimável e foi determinante para conseguir empregos em multinacionais e iniciar minha carreira de empreendedora.

 

Quais lugares você visitou durante o período de “nomadismo digital”?

Visitei a Tailândia, Vietnã, Camboja, Austrália, Indonésia, Nova Zelândia, Alemanha, Portugal, EUA, Reino Unido, Malásia, Republica Tcheca, Marrocos, Áustria e alguns outros.

 

 

Onde você ficava hospedada nestes países, durante o período como nômade?

Geralmente, se o período é maior do que uma semana, [eu e meu namorado] alugamos apartamentos, se for de até uma semana, em hotéis.

 

Quais as principais lições você tirou desta experiência?

Aprendi a ser mais flexível e a julgar menos. Morei em países de culturas bem diferentes da nossa, e acredito que antes talvez julgasse um pouco mais. Hoje tento entender um pouco porque as pessoas agem de forma diferente e me colocar na posição delas, porque aquilo faz sentido em suas culturas e não na minha. Tento aprender com as diferenças e até adquirir alguns costumes de culturas diferentes da minha que acho que podem me ajudar a ser uma pessoa melhor.

 

Quais dicas você daria para quem gostaria de ter esta experiência de nômade digital?

Acho que a principal dica seria se preparar, se estruturar, ter vários planos caso algo dê errado no meio do caminho e, claro, ir aberto a tudo. Inclusive ao fato de que as coisas não saem nunca 100% como planejamos e por isso é tão importante ter vários planos. Eu talvez tivesse tido mais medo de ser nômade caso nunca tivesse saído do Brasil anteriormente e não soubesse falar inglês muito bem. Com certeza, teria limitado na parte de trabalho e para fazer amigos, ambos muito importantes quando se mora fora, então com certeza a experiência anterior ajudou muito no processo.

 

Como conciliar as viagens com o trabalho?

Conciliar as viagens é sempre um desafio! Quando fui au pair, viajei muito dentro dos EUA e fui ao Canadá e à Inglaterra. Nessa época, era mais fácil porque eu tinha os feriados normais e um “trabalho normal” com horários normais, estudava e trabalhava normalmente e aproveitava finais de semana, feriados e férias. Como nômade, sempre tentei buscar um balanço entre o trabalho e as viagens. Passamos três meses morando em muitos países que conhecemos, como foi o caso da Tailândia, por exemplo, então aproveitamos finais de semanas, alguns feriados ou então nos organizávamos para trabalhar longas horas de segunda a quinta para tirarmos a sexta livre e termos mais um tempinho para aproveitar. Não é fácil, quando você está viajando tende a relaxar e a se sentir de férias, por isso, manter a motivação para trabalhar quando se está naquela praia que todo mundo gostaria de visitar é muito difícil mesmo. Além disso, a adaptação ao novo país/cidade faz com que você tenha menos capacidade de concentração.  Acredito que nesse caso, lembrar que você está ali por causa do seu trabalho e que terá que pagar o aluguel do apartamento no final do mês ajuda bastante.

 

Quais motivos te levaram a optar por morar em Londres?

Foram vários motivos mesmo. Eu conheci Londres há 10 anos e desde então sempre tive muito carinho pela cidade. Quando comecei a viajar, achei que fosse me interessar mais por morar em um lugar com sol e praia... Mas a verdade é que pra mim o mais importante é se identificar com a cultura do lugar onde você mora. E eu me sinto em casa nesse aspecto. Moro com um britânico há quase três anos e adoro a cultura britânica. Acho que tenho valores parecidos com os daqui, me identifico e gosto muito mesmo da cidade. Teria dificuldade de morar por longos períodos em algum lugar com uma cultura muito forte voltada apenas ao capitalismo ou que fosse superficial, por exemplo. Gosto de cidades cosmopolitas, de diversidade, cultura, de ter muitas opções do que fazer o tempo todo, adoro o fato de morar em uma cidade tão rica em história e ao mesmo tempo tão moderna. Gosto de cidade grande e tenho a sensação de morar “no meio do mundo” devido aos links daqui de Londres para outros países. Apesar de termos optado por ter novamente uma casa, uma base, continuamos viajando muito (no total, eu já visitei 42 países) e passamos às vezes um mês inteiro fora (passamos um mês na Índia recentemente) e, por isso, também é importante morar em algum lugar fácil e com possibilidades baratas de viagens para continuarmos com nossas jornadas.

 

 

Você possui alguma dica sobre visto para quem tem interesse em abrir uma empresa morando na Inglaterra?

Abrir uma empresa na Inglaterra é muito, muito mais fácil do que no Brasil, desde que você tenha visto para isso. E essa é, sem dúvida, a parte mais difícil. Não é segredo para ninguém que o país vem restringindo bastante as possibilidades para imigrantes. E por esse motivo, para abrir uma empresa aqui, você precisa ter algum visto que te dê residência (o meu caso), possuir cidadania europeia ou ter no mínimo 200 mil libras esterlinas para investir no seu negócio. Esse é o valor mínimo que o governo considera para o visto de empreendedor. Porém, se a sua start-up tiver grande potencial, pode ser levado em consideração até 50 mil libras de investimento inicial. O visto de investidor é o Tier 1 e dá direito a permanência de três anos e quatro meses inicialmente para o investidor e seus dependentes. Muitos outros países europeus oferecem visto de investidor por valores bem mais baixos que a Inglaterra, não me lembro exatamente o valor exato, mas sei que em Portugal, por exemplo, o valor de investimento é muito mais baixo. Na verdade, todos os países do mundo oferecem residência através do visto de investidor, o que varia são os requisitos e os valores, alguns países são mais caros e burocráticos e outros menos.

 

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SOBRE O AUTOR

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Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.

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