Essenciais
Reino Unido: Vida de estudante

Entrevista com o autor de Mochileiro Aprendiz Aventureiro

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Uma mochila nas costas e um mundo a se explorar. Quantas pessoas não sonham com essa ideia? Nem todos têm a coragem de colocar o sonho em prática. Mas este não é o caso de Vicente Zancan Frantz, autor de Mochileiro Aprendiz Aventureiro. Em 2003, resolveu conhecer o mundo e partiu para Londres. Em quase dois anos, conheceu mais de 15 países. Estudou, trabalhou, viajou, viveu. E o resultado desta incrível experiência intercultural, você encontra em seu livro lançado em 2006, com nova edição publicada em agosto de 2012.

 

Impressionados com a história deste gaúcho de Ijuí, nós do Hotcourses Brasil conversamos com Vicente para saber mais sobre sua aventura. Esperamos que este nosso bate-papo lhe dê um incentivo a mais para você se organizar, colocar os seus planos em prática e não prorrogar mais a experiência de ir estudar no exterior!

 

Como surgiu a ideia da criação do livro? Antes, durante ou depois da viagem?

Sempre sonhei viajar e escrever. Assim que coloquei a mochila nas costas e saí de casa, decidi que faria anotações e, caso estas ficassem interessantes para as demais pessoas, posteriormente eu as publicaria em um livro. Durante a viagem, postei esses rabiscos em um blog e o interesse geral foi bem maior do que aquele que eu imaginava que ocorreria. Diante disso, logo depois da aventura ocorreu a publicação de “Mochileiro Aprendiz Aventureiro”. Das mais de 1000 páginas anotadas, 150 foram usadas para a primeira edição. Mas o livro acabou sendo reescrito, melhorado, e ganhando novas versões, afinal, a intenção é registrar esse tipo de experiência mochileira (feita por milhões de jovens pelo mundo a fora), informando a todos e também homenageando os aventureiros.

 

Como planejou a viagem? Imaginava conhecer tantos lugares em pouco menos de dois anos? Tinha um itinerário fixo ou viajava para outro país quando dava na telha?

Eu viajei quando estava no meio do curso da faculdade de Direito, mas a viagem foi planejada desde o Ensino Médio, especialmente com estudo de Inglês e leitura sobre os países, a fim de definir o que era mais do meu interesse. Escolhi ficar mais tempo em Londres, pois lá melhoraria o meu Inglês, conheceria dezenas de culturas numa só cidade, trabalharia e ganharia em libras, moeda forte que torna as viagens acessíveis e baratas. Ao colocar os pés e a cabeça na estrada, não fixei tempo para voltar, mas sim um número de lugares que eu queria conhecer. Assim que eu juntava dinheiro na capital inglesa, pedia folga ou demissão e “mochilava”. A aventura contada no livro acabou durando uns dois anos.

 

Você deixou a faculdade de Direito pela metade para viajar. Acha que foi uma boa escolha?

 

Tudo depende da área de atuação e dos planos de cada um dentro dessa área. No meu caso, da área jurídica, o melhor é sempre viajar no meio da graduação, pois já estamos um pouco familiarizados para aproveitar o que profissionalmente interessa, bem como, ao voltar, temos tempo para nos atualizar sobre as leis que mudaram no período da viagem. Com essa ordem, a formação em Direito fica mais completa, o estudante mais preparado e seguro sobre as várias alternativas profissionais futuras.

 

Quais países conheceu?

Eu prefiro não falar em países, pois alguns dias ou semanas em algum lugar são insuficientes para se conhecer “um país”. Prova disso é que somos brasileiros e muitos de nós ainda não conhecemos grande parte da nossa “pátria amada”. Mas posso dizer que “mochilei” por Inglaterra, Escócia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália, Vaticano, Alemanha, Suíça, República Tcheca, França, Holanda, Cuba, Jamaica, Argentina, entre outros.

 

Como lidava com a saudade de casa?

A saudade de casa talvez seja uma das maiores dificuldades a serem vencidas por quem viaja durante meses ou anos seguidos. Eu telefonava e me comunicava por emails. De qualquer forma, a saudade é um sentimento de “falta” e o que eu mais sentia era a falta de viagens para lugares variados, convicto de que o mundo é nosso e temos que conhecê-lo.

 

Qual era o seu nível de inglês quando deixou o Brasil? Teve dificuldade com o idioma? Quanto tempo levou para falar fluentemente?

Antes de partir, eu havia frequentado aulas de Inglês durante cinco anos. Então, não foi problema me comunicar sobre coisas essenciais do dia-a-dia. Mesmo assim, tive dificuldade para compreender o Inglês britânico, já que havia estudado o Inglês estadunidense. Chegando em Londres, levei uns três meses para raciocinar (e sonhar!) automaticamente em Inglês. Nos primeiros seis meses, estudei na turma de nível “intermediário” e em seguida passei para a turma de nível “avançado”.

 

No exterior, por quanto tempo no total você estudou inglês? Chegou a estudar algo relacionado a sua área de graduação?

Em Londres, estudei nas escolas Camden College of English, Eden House College, City University London, Birkbeck University of London, University College London. Frequentei aulas de Inglês com três horas diárias de segunda à sexta, durante 14 meses (salvo quando estava viajando). Em média, para cada hora em sala de aula eu estudei outra em casa. Além disso, participei de cursos rápidos e eventos sobre Direito, Filosofia, Sociologia e Criminologia. Sem contar o estudo ao observar as pessoas, o mundo e a vida fora do Brasil, que, apesar de não garantir um certificado, permite muito aprendizado.

 

Você passou por diferentes empregos durante o mochilão. Foi difícil conquistar estas vagas sendo estrangeiro?

A maioria das pessoas viaja apenas para conhecer pontos turísticos. Mas um mochileiro completo busca crescimento pessoal, profissional e existencial. Uma das coisas que experiencia é o preconceito, a exemplo da dificuldade de conquistar vagas de trabalho, (por mais simples que elas sejam, como servir bebidas atrás de um balcão), seja pelo visual, pelo sotaque, pela origem. As oportunidades de emprego variam conforme a cidade, o período do ano, a situação da economia local, as indicações e a sorte.  Eu passei por mais de vinte locais de trabalho. Demorei oito meses para conquistar algo que me satisfizesse, como atendente no Melbourne House Hotel (considerando os objetivos da viagem).

 

Teve algum país no qual se sentiu mais deslocado? E em qual deles se sentiu mais em casa?

Sinto que estou em casa não em um local determinado, mas quando acontecem certas coisas como respeito, hospitalidade, organização, tranquilidade, mútuo auxílio, oportunidade. Eu seria injusto se mencionasse apenas um país. Vivi situações boas em todos eles, talvez porque procurava justamente os pontos positivos de cada um.

 

O que esta experiência maravilhosa lhe agregou como pessoa? E como profissional?

Como pessoa, o principal legado foi a satisfação pessoal e felicidade. Confirmei, por experiência própria, várias coisas que sabia apenas por ler e ouvir. Passei a acreditar que viajar é a forma mais eficaz para melhorar o mundo e a própria vida, pois o viajante, ao se deparar com as diferenças, compara, enxerga, compreende os melhores caminhos. Passa a conseguir ler a vida e o mundo. Alcança uma qualificação pessoal e existencial não proporcionada por outros meios, mesmo dentre os mais eficazes. Pessoalmente, ainda, acentuei a minha vontade de construir um Planeta melhor e passei a tomar atitudes dentro do que me é possível: escrevi um livro, montei grupos, páginas e comunidades em redes sociais, dou palestras, faço o máximo esforço para conquistar uma posição profissional que me possibilite ser um agente de transformação social.

 

Profissionalmente, em resumo, passei a ser beneficiado como os demais Mochileiros Aprendizes Aventureiros o são: num mercado baseado em concorrência, as portas se abrem em razão do currículo construído.

 

Como surgiu a ideia de palestrar sobre o assunto? Como funcionam as palestras?

As palestras surgiram como consequência da minha experiência e de forma natural, com interessados fazendo perguntas e convidando para encontros coletivos, geralmente em feiras do livro, escolas, universidades, eventos promovidos pelos setores de viagens, turismo e intercâmbios. Acabei criando temas específicos, os quais altero com frequência ou complemento para atender ao interesse do público. Os detalhes podem ser conferidos no endereço www.PELAPAZ.com.

 

Há vários palestrantes qualificados esperando a oportunidade para realizar um trabalho que beneficia a todos, mas que ainda é pouco incentivado. Na minha opinião, eventos de viagens, turismo e intercâmbios, com essa proposta de demonstração e motivação para o crescimento individual e coletivo, mereceriam mais a atenção das pessoas.

 

Uma vez mochileiro, sempre mochileiro? Já tem ideias para a próxima aventura?

Como escrevi em meu livro, estou propondo um novo conceito de “mochileiro”, mais completo do que simplesmente ser um turista com uma mochila nas costas. Eu “mochilarei” eternamente e aguardo a próxima oportunidade chegar, seja para aonde for. Creio que um ser humano encontra felicidade e o sentido da própria existência quando “mochila”, pois passa a conhecer melhor o mundo, a vida, os outros e a si próprio.

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SOBRE O AUTOR

Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.

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