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Experiência real: se formar em uma community college dos Estados Unidos

Carolina viajou para os EUA para ser au pair, mas acabou realizando muito mais: o seu sonho de se formar no ensino superior no país. Conheça a sua história aqui!

Experiência real: se formar em uma community college dos Estados Unidos
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Leia a entrevista com Carolina Nunes, 27, e a sua bela história nos Estados Unidos, que começou com o programa de au pair, passando por uma Community College na Virginia, e culminou na admissão em uma graduação na Universidade de Marymount.

 

Primeiramente, qual é a sua idade e sua formação?

 

Tenho 27 anos e acabei de me graduar no NOVA (Northern Virginia Community College) em Artes Liberais. Liberal Arts é mais ou menos uma opção de curso para quem quer "descobrir" a carreira, tendo assim a oportunidade de pegar matérias de vários cursos diferentes para explorar. Depois de dois anos pode declarar a "major" ou curso universitário que seguirá, sem afetar muito o andamento da graduação. Já que aqui nos EUA, durante os primeiros dois anos, devemos pegar várias matérias obrigatórias que não tem muito haver com o curso em si.

 

Como e quando você foi para os Estados Unidos?

 

Eu pisei em solo gringo (cheguei no começo do inverno) em novembro de 2010 como au pair. Um programa de intercâmbio de estudo e trabalho. Eu morava/trabalhava na casa de uma família cuidando das crianças e estudava inglês (ESL).

 

Como foi a sua experiência como au pair?

 

Eu costumo dizer que a minha experiência como au pair foi uma em um milhão. Sem querer, eu vim parar na casa da família de uma amiga da minha amiga (entendeu?) que foi au pair por dois anos, um ano antes de eu vir. E a minha host family adorou todas essas conexões meio doidas. Eu moro em Virginia na cidade de Fairfax, de um pouco mais de 24.000 habitantes. Porém, aqui nos EUA, ir de uma cidade pra outra é como ir de um bairro para outro na grande SP. 

 

Minha família hospedeira é bem pequena, tem minha host-mom e a menina adotada da Guatemala. Foi uma experiência incrível ser au pair para ela. Por ser uma família pequena, minha host sempre fez questão de que eu participasse das vida delas em diferentes atividades, desde jantar juntos em casa até fazer um cruzeiro da Disney para Bahamas (e não fui trabalhando, fui como convidada). Sexta-feira é dia de jantar fora e cada sexta é dia de alguém escolher onde quer comer, e foi assim que eu engordei quase 20 quilos na América. Claro que, como toda família, eles têm seus pontos fracos. A casa, por exemplo, é uma BADERNA! Mas eu tenho minha suíte então meu lugarzinho no meio do caos da casa é mais organizado. :)

 

Eu daria uma nota 9 para minha experiência, porque esse negócio da casa ser uma bagunça bem que me incomoda. Mas a família super compensa. Hoje a menina me considera a sua irmã mais velha. Esse dia dos pais, por exemplo, ela declarou ser "dia dos irmãos" e nós fizemos várias atividades juntas.

 

 

Quando você decidiu que gostaria de permanecer no país para continuar os estudos?

 

Quando eu decidi que seria au pair, disse para minha mãe que ficaria no máximo dois anos e então voltaria. Mas já estava nos meus planos ficar nos Estados Unidos para fazer faculdade. Eu estudei a vida toda em escola pública. Era uma daquelas estudantes que participava de grêmio, melhor aluna da sala e a chata que não passava cola. A revolucionária da sétima serie que fazia abaixo-assinado pra diretora convidar professores ruins a se retirarem da escola.

 

Com o tempo percebi que a educação no Brasil só ia de mal a pior. Eu senti que me faltava muita oportunidade na escola, o que eu aprendi mais tarde é que, na verdade, os nossos direitos como estudantes de escolas públicas muitas vezes nos são roubados. Por isso trabalhei no Brasil por três anos e juntei o dinheiro do Programa, mais uma graninha extra, e vim com o intuito de melhorar o inglês para poder entrar na universidade aqui.

 

O que foi necessário para conseguir permanecer no país legalmente?

 

Como eu tinha um visto J1, eu já havia provado para o governo americano que eu tinha concluído o ensino médio, então não precisei provar isso novamente na Community College. Apenas mandei meus documentos e esperei pela resposta. Enquanto isso, eu ainda tinha o meu J1 válido, então aproveitei para começar algumas aulas para adiantar meu currículo. 

 

Qual era o seu curso e como era a sua community college?

 

Meu curso na Community College foi de Liberal Arts. Mas no começo como eu não sabia com certeza o que queria estudar, apliquei para o curso de fotografia que era o que me interessava no momento. Depois troquei para Liberal Arts que é o estudo de várias áreas diferentes dentro de humanas. Nele, você pode explorar o que te interessa e depois decidir o que fazer. Minha Community College é de grande porte, com um pouco mais de 50 mil estudantes. Eles oferecem classes em seis campi diferentes e têm bastante atividades em todos os campi, desde filme no gramado às sextas feiras até almoço internacional.

 

Quanto a acomodação, eu não precisei me preocupar com isso. A minha host family me ofereceu de me sponsar [patrocinar] "por partes", então nos meus documentos da escola ela assinou dizendo que se responsabilizaria pelos meus gastos com room and board (moradia e comida). Isso foi uma ajuda que caiu do céu porque o custo de vida na área na qual eu moro é super caro. O aluguel de um quarto aqui é por volta de $600 dólares. Uma preocupação a menos que eu tinha. Eu comprei o carro da minha host, então não precisava me preocupar com transporte.

 

Como foi a sua matrícula na faculdade? Precisou passar por um processo seletivo? Quais documentos você precisou providenciar? Já estar nos EUA facilitou o processo?

 

Primeiro eu fiz uma prova para provar o meu inglês já que eu não havia feito o teste do TOEFL. Não existe um processo seletivo para college, você só precisa provar que terminou o ensino médio. Então, a escola me deu uma lista de outros documentos que eu precisava, como: formulário de inscrição (application), um formulário de financiamento (que seu sponsor preenche e assina), comprovantes bancários, carta de apresentação, um aprovação da escola de que você tenha o nível universitário de inglês (no meu caso, eu fiz o teste da faculdade) ou o seu resultado do TOEFL e passaporte. Dependendo da escola, o processo pode ser um pouquinho diferente, mas no geral é isso que pedem. E se você vem do Brasil, precisa ter o comprovante de conclusão de Ensino médio todo traduzido e autenticado. Eu mandei tudo dentro do prazo e esperei pela resposta do governo. O processo de troca demorou em torno de quatro meses.

 

Eu acredito que estar aqui facilitou um pouco apenas porque eu já sabia o que esperar mais ou menos, por já conhecer pessoas que passaram pelo mesmo processo e isso ajudou muito. Porém, tirando o visto, eu acredito que não seja muito diferente o processo de Community College estando aqui ou no Brasil.

 

Pela sua experiência, quais as vantagens de começar os estudos nos EUA por uma community college, cursando um associate degree?

 

Eu vi muita vantagem de começar os meus estudos na CC. Primeiro que se você não está dominando a língua completamente, a Community College te dá todo um suporte e apoio pelo departamento de línguas para fazer com que você tenha sucesso nos seus estudos. Outras universidades também têm isso, mas elas esperam que você já venha preparado. Já a Community College te prepara para a University.

 

Outro ponto importante: a Community College é mais barata que as universidades, por isso você pode salvar uma grana ótima para depois poder aplicar na escola dos seus sonhos. Por esse motivo, você também pode pegar classes para explorar seus conhecimentos e não gastar tanto. Existem professores excelentes nas Community Colleges. Na minha, por exemplo, uma das professoras de Inglês é a Jill Biden, esposa do vice-presidente dos EUA. Outra coisa interessante é que cada estado tem a sua regra, mas no geral grandes Community Colleges têm acordos com universidades do mesmo estado e você pode transferir suas aulas para a sua Universidade de quatro anos quando você se graduar com o associates sem tanta burocracia. E o associates degree aqui é como um de tecnologia no Brasil, então você sai da CC com um diploma. Muita gente não dá valor a Community College, mas a galera sai daqui para Columbia, University of Virginia, Virginia Tech, Georgetown, Georgia Tech e a lista continua.

 

Você estudou com alunos de diferentes nacionalidades? Como foi esta experiência? Esta diversidade é benéfica para os estudos?

 

Estudei com alunos de lugares que nunca imaginaria, Zimbábue, por exemplo, e países que nunca tinha ouvido falar como Uzbequistão. Meus colegas de classe eram desde filhos de indianos ricos até refugiados do Irã que mudaram para os EUA procurando exilo. Isso tudo beneficiou de forma extraordinária a minha experiência e me ajudou a moldar o meu caráter e até mesmo me ajudou a me descobrir. Eu aprendi o quanto eu amo essa diversidade e como isso me inspira a aprender sobre novas culturas, conhecer pessoas e suas histórias. Por esse motivo escolhi estudas ciências políticas e estudos internacionais e entender como diferentes governos e culturas funcionam, e como isso pode afetar uma nação inteira.

 

 

Os estudos foram difíceis? Quais as principais adversidades que você precisou enfrentar?

 

SIM, os estudos foram difíceis porque eu descobri que não aprendi nada no ensino médio no Brasil. O ensino aqui é bem puxado e avançado. Então eu tive que estudar o dobro, se não o triplo, para entender uma matéria de introdução que a maioria dos meus colegas estavam apenas revisando no começo. O inglês também foi uma barreira. Eu não estava preparada para escrever pelo menos cinco trabalhos de 20 páginas em inglês por semestre, mais projetos finais e provas, tudo isso acumula. Eu sentia que meu vocabulário era muito baixo para o que eu necessitava, ralei muito para conseguir meus A’s e B’s.

 

Você recebeu alguma bolsa de estudo? Se sim, qual bolsa e como foi o processo de seleção? Se não, como você bancou pelos estudos?

 

Não recebi nenhuma bolsa de estudos. É muito difícil as CCs oferecerem bolsas de estudos para estudantes, principalmente estudantes internacionais. Porque a CC já é considerada uma opção acessível e mais barata do que uma Universidade de quatro anos. Ela é a ponte para chegar na Universidade. Porém existem lugares aonde vocês podem procurar por bolsas de estudos que variam bastante dependendo do curso e da sua boa vontade. Existem instituições privadas que oferecem bolsas de estudos em troca de trabalho voluntário. O que é ótimo para você adicionar ao seu curriculum mais tarde. Minha dica é pesquisar bastante no site da universidade que você quer ir ou college; pode ser que você encontre alguma coisa como merit based scholarships [bolsas de estudo por mérito] para estudantes com GPA’s altos; para quem estuda a área de ciências, eles valorizam bastante, por isso existem mais bolsas nessa área. Minha dica é: aplique para todos os lados por scholarship, quem sabe uma dá certo. Qualquer mil dólares é uma ajuda.

 

Como eu disse vim com a cabeça focada em entrar na faculdade então, enquanto fui au pair, eu tive que renunciar algumas coisas como viagens grandes para Califórnia, Vegas ou Europa como muita gente faz. E juntei o dinheiro para pagar a college durante esse tempo. Eu também deixei todos os meus vizinhos saberem do meu objetivo, o que foi ótimo porque todo mundo me ajudou muito e espalharam pelo condomínio, e acabou que durante os meus dois anos de au pair eu consegui juntar o dinheiro para pagar a minha college inteira. E como não precisei pagar por moradia, eu me garanti para os dois anos de estudos. Eu também contei com a generosidade de amigos que decidiram investir no meu sonho e me ajudaram com uma graninha. Uma coisa que eu aprendi aqui nos EUA é que se você tem um sonho, acredite nele e conte dele para os outros, ou você nunca saberá quem quer sonhar com você.

 

Existem também oportunidades de trabalho, enquanto você estuda, pode procurar trabalhos de meio período na faculdade desde nos escritórios até sendo tutor de inglês e matemática, ou na cafeteria e livraria. A média de salário é entre $8 a $10 e para tutores e cargos melhores talvez cheguem a $12. Durante seu semestre escolar você não pode trabalhar mais do que 20h semanais. Já no verão você pode fazer mais horas.

 

Como a community college oferece suporte aos seus estudantes estrangeiros?

 

Existem várias atividades para estudantes internacionais organizadas pelo International Office que promove eventos, workshops e encontros de almoços e cafés com conversa, pelo menos três vezes por mês. Toda College tem uma sessão chamada Student Life aonde você encontra as diversas atividades e clubes que a escola oferece. Vale super a pena conferir e participar, é uma ótima maneira de conhecer pessoas. 

 

 

Qual será o seu próximo passo? Você pretende continuar os estudos nos EUA para terminar um bacharelado? Onde?

 

Eu acabei de ser aceita na Universidade de Marymount, onde eu vou continuar os meus estudos em Ciências Políticas e Estudos Internacionais. Estou super animada para essa nova fase. Marymount é uma Universidade privada de pequeno /médio porte, o que é ótimo a meu ver. As aulas são mais one o one. Já que eu não sou o tipo de pessoa que se dá bem em aulas com 100 alunos. Gosto de classes pequenas aonde o professor me conhece pelo nome, sabe da minha história e tem interesse no meu futuro. Eu escolhi a Marymount porque eu queria continuar nessa região e porque é uma universidade que se interessa em ajudar e servir a comunidade de várias maneiras. Achei isso incrível porque eu vou poder ajudar e servir e ainda colocar isso no meu curriculum mais tarde. Também porque ela tem várias oportunidades de estudar no exterior e incentivam e ajudam os alunos a irem. Ah, outra coisa que adorei é o estágio obrigatório no último semestre, o que me dará mais tempo de ganhar experiência mesmo antes do meu OPT. Minhas aulas começam no fim de agosto. Uma nova fase começa e estou mega animada. 

 

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SOBRE O AUTOR

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Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.

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