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Portugal: George relata prós e contras dos estudos em Lisboa

Em entrevista completa, George fala sobre seu mestrado em Portugal por um acordo de educação transnacional entre a USP e o Instituto Superior Técnico (IST).

Portugal: George relata prós e contras dos 2 anos de mestrado em Lisboa
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Vista de Lisboa no último andar das Torres do IST. “De tirar o fôlego!”, diz George. (Foto: acervo pessoal.)

 

George Emiliano, 24 anos, é de São Paulo, capital, e estudante de Engenharia de Minas pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Graças a um acordo de educação transnacional de dupla-graduação com o Instituto Superior Técnico (IST), da Universidade de Lisboa, ele conseguiu cursar o Mestrado em Engenharia Geológica e de Minas na maior instituição portuguesa de Engenharia, Arquitetura, Ciência e Tecnologia e também uma das mais importantes da Europa.

 

Europa intercâmbio

 

O caso de intercâmbio de George é um exemplo de como é possível aproveitar a relação da sua universidade brasileira com instituições internacionais para ter experiências edificantes de estudos no exterior antes mesmo de se graduar.

 

Leia a entrevista a seguir!

 

Como e por que decidiu-se por Portugal como destino de estudo?

 

A decisão de Portugal, mais especificadamente Lisboa, deveu-se a um acordo de dupla-graduação entre a Escola Politécnica da USP e o Instituto Superior Técnico (IST). O IST era uma das poucas opções entre os acordos de dupla-graduação que ainda possuía Engenharia de Minas como curso curricular (e faz sentido, já que há alguns anos o contexto Europeu de volume de extração mineral não é de protagonismo mundial). 

 

Como foi o processo de seleção? Você recebeu orientação da Universidade de Lisboa ou de alguma agência? Quais documentos precisou providenciar?

 

O processo foi interno e entre universidades (no caso, Poli-USP e IST). Neste contexto, os professores, primeiramente, verificaram as minhas notas obtidas durante a graduação e uma carta de motivação explicando a minha justificativa de escolher Portugal como destino da dupla-graduação. Depois da aprovação da primeira seleção, os professores me entrevistaram presencialmente.

 

Para quem não tem esta oportunidade entre as universidades e, ainda sim, gostaria de fazer parte de uma das escolas mais tradicionais de engenharia de Portugal, o IST, não deixe de ver os documentos necessários para o processo seletivo. No caso do IST, o processo seletivo deles é totalmente online.

 

Qual mestrado você cursou? O que achou do ambiente e da cultura acadêmica de Portugal? Quais foram os principais prós e contras?

 

George intercâmbio em Portugal

Último dia do ATHENS, curso de uma semana de duração, na Mines ParisTech (em Paris, França). Na ocasião, o conhecimento escolhido foi de "Introduction of Finite Elements". (Imagem: acervo pessoal)

 

 

Como dito anteriormente, cursei o Mestrado em Engenharia Geológica e de Minas. O ambiente e a cultura acadêmica portuguesa são extremamente ricos e complexos. Um dos grandes pilares atuais do IST é a internacionalização, ou seja, de maneira geral temos muitos alunos internacionais nas aulas o que enriquece ainda mais este contexto.

 

Assim, para entender o ambiente e a cultura acadêmica é importante, anteriormente, entender o perfil do aluno em questão. Neste caso, vou melhor definir o aluno europeu (que vai de encontro com as características do aluno português). De maneira geral (e deixo claro que existem exceções):

 

(1)     Quanto ao conhecimento adquirido, o aluno europeu busca o conhecimento de forma a querer entender absolutamente tudo que cerceia este conhecimento. Algo não aprendido (ou mal aprendido) pode acarretar em uma defasagem do conhecimento futuro e eles são bastante cientes disto.

(2)     Competividade. O aluno europeu é competitivo. Uma nota "medíocre" não é sinônimo de bom desempenho. Ressalto que, na maioria das vezes, esta competitividade por nota acontece, pois algumas empresas – durante seus respectivos processos seletivos – pedem as notas da faculdade como critério de seleção. Neste contexto, o IST oferece a oportunidade de, mesmo com a nota suficiente para concluir a disciplina, melhorar a nota (em escolas italianas – como é o caso da Politecnico di Torino – a melhoria de nota também é procedimento comum entre os estudantes).

(3)     Dedicação. O aluno europeu é extremamente dedicado com os trabalhos e tarefas de casa. O que mais me impressionou neste aspecto foi nível de qualidade que os próprios alunos se impunham. A qualidade dos exercícios era bastante acima da média independente da complexidade do trabalho ou da relevância dele para a nota final.

 

Conhecendo (com alguma superficialidade) o perfil do aluno, fico mais à vontade de escrever a respeito dos pontos positivos e negativos daquele contexto.

 

Pontos positivos:

 

I.     Alunos internacionais e aulas em inglês.

 

Na minha sala tínhamos as seguintes nacionalidades: espanhola, belga, polonesa e brasileira, além de, lógico, dos portugueses. Aprendi um pouco com cada um deles, como por exemplo, as regiões mais exploradas pela mineração de cada país. Esta troca de conhecimento foi possível pela língua em comum: o inglês. Todas as aulas e materiais disponibilizados são em inglês. Temos a opção de fazer a prova em português ou em inglês.

 

II.     Não existe controle de frequência no IST. 

 

Primeiramente pensei que as aulas não teriam quórum com a ausência deste controle de frequência dos alunos. Entretanto, as aulas no IST, mesmo sem a "lista de presença", estão cheias de alunos e alunas interessados. Os professores portugueses entendem este contexto e, por isso, são empenhados em cativar os seus alunos e tornarem as aulas realmente interessantes.

 

III.     Divisão das aulas em: Aulas Teóricas, Aulas de Exercícios e Laboratório. 

 

Como não existe controle de frequência, os professores devem, de alguma maneira, estimular a presença dos alunos em aula. 

 

No meu primeiro semestre, lá em 2017, a aula que eu tive com a maior quantidade de estudantes foi "Soil and Rock Dynamics". O professor desta disciplina, em todas as aulas, realizava resolução de exercícios e não a disponibilizava no portal da matéria. A prova era muito parecida com os exercícios, o que incentivava os alunos a ir às aulas.

 

IV.     Poucas disciplinas.

 

No IST, tinha a possibilidade de me inscrever na quantidade de disciplinas desejada. A única restrição era cumprir 120 ECTS (créditos de aula vigorados em universidade do acordo Bologna) para conseguir o diploma mestrado. Dessa maneira, eu poderia fazer o duplo-diploma em 1 ano, com 60 ECTS por semestre.

 
O que o Técnico recomenda é a realização de 30 ECTS por semestre. No curso de Engenharia Geológica e de Minas, tinha apenas 5 disciplinas de 6 ECTS cada. Era muito bom pela pouca quantidade de provas durante o semestre e de trabalhos.

 

V.     Preciosismo acadêmico.

 

O preciosismo que eu escrevo aqui pode ser entendido na seguinte situação: caso você consiga um 20 (a escala é de 0 a 20, não 0 a 10) em uma prova, o professor pode te chamar para uma pequena prova oral, chamada de "Sustentação Oral". O professor faz isso, pois ele quer ter certeza que você sabe o que foi abordado na prova. Caso ele perceba que você não sabe, ele tem o direito de abaixar a sua nota. 

 

Pontos negativos:

 

I.     Preciosismo acadêmico.

 

Muitas vezes, o preciosismo acadêmico permite que as aulas tenham muitas demonstrações e torna os trabalhos mais complexos do que eles deveriam ser realmente.

 

II.     Slides.

 

Eu, particularmente, não gosto de apresentações de slides com muitas informações. E por causa do preciosismo citado anteriormente, as aulas, às vezes, se tornavam monótonas.

 

Onde você morou em Lisboa? Como encontrou esta moradia?

 

Um dos motivos que me ajudou a escolher Lisboa como o destino do intercâmbio, com certeza, foi o custo de vida. Portugal, dentro da União Europeia (UE), não é um país que possuí elevados custos de vida (observar o salário mínimo e compará-lo entre os países da UE). Entretanto, fui pego de surpresa quando me informaram a respeito da especulação imobiliária que Portugal vivia em 2017 e que perdura até hoje, finais de 2019. Uma suíte simples próxima do IST (na região central de Lisboa), por exemplo, gira em torno de 350 - 450 euros.

 

A Universidade de Lisboa e o IST oferecem moradias estudantis a preços acessíveis, entretanto, a procura por estes quartos é maior que demanda. Ainda em São Paulo e antes de chegar em Lisboa, pleiteie um quarto compartilhado oferecido pelo IST (a moradia chama Eng. Duarte Pacheco no Parque das Nações) e não o consegui pela quantidade de estudantes também procurando, fiquei na fila de espera e nunca fui chamado.

 

Neste contexto, conheci a cultura de repúblicas portuguesas (casas de fraternidade). Participei da seleção da República Desordem dos Engenheiros (que somente aceita estudantes do IST) e passei. Durante os dois anos de Lisboa, morei na Desordem, eram sete quartos com duas pessoas por habitação.

 

Para aqueles que têm a dificuldade de encontrar moradia em Lisboa e não fazem parte do IST, procurem: República do Santo Contestável ou República do 69.  

 

O que achou da experiência de morar em Portugal? Como era a receptividade das pessoas? E as diferenças/similaridades em relação à cultura brasileira?

 

Portugal é um país pequeno em extensão e, assim como o Brasil, riquíssimo em costumes e cultura. A experiência de viver durante 2 anos em Lisboa foi bastante proveitosa. Lisboa é uma cidade pequena (se comparar com São Paulo) e, consequentemente, tranquila, oferecendo uma elevada qualidade de vida, de maneira geral, a seus habitantes.

 

A receptividade dos portugueses dentro do IST foi formidável. Os colegas portugueses foram prestativos, pois entendiam que (nós alunos internacionais) estávamos longe de casa e apresentávamos uma carga emocional maior com os desafios corriqueiros da universidade. Já os funcionários do IST (que não posso deixar de escrever a respeito) tornaram a experiência do intercâmbio ainda mais incrível com o carinho e a atenção com que tomavam para resolver os nossos problemas do dia-a-dia.

 

A cultura sul-americana é bem aceita entre os jovens de países europeus e principalmente em Portugal. Graças à globalização, o Brasil tem um papel de destaque na cultura portuguesa atual com a exportação diária de notícias, músicas, vídeos e novelas. Portugal, de maneira geral, é mais interessado pelo Brasil que o Brasil é interessado por Portugal. Ou seja, muito se escutava, se via e se sentia da cultura brasileira nas ruas de Lisboa.  

 

Em outro aspecto, consegui entender a origem dos gargalos brasileiros (como burocracia e excesso de documentos), vivendo em Portugal. Para ilustrar: tive que tirar um documento de saúde pública e peguei, acredite, 9 horas de fila no centro de Lisboa (nenhum lugar é um mar de rosas). 

 

Durante esses dois anos, mesmo o IST sendo uma escola que possuí uma carga elevada de trabalhos complexos e estudo diário, foi possível realizar algumas viagens por Portugal e pela Europa.

 

Como foi a experiência de estudar com pessoas de diferentes partes do mundo?

 

O IST preza bastante pela internacionalização de sua escola. Estive com estudantes de diferentes países: Angola, Alemanha, Bélgica, Itália, Espanha, Moçambique, Nigéria, Polônia, Venezuela... A experiência é realmente enriquecedora!

 

São amigos espalhados por vários continentes do mundo! Um amigo belga veio me visitar em São Paulo durante 15 dias em 2018 e voltará para passarmos o carnaval do próximo ano.

 

Você chegou a ter experiência de trabalho ou estágio em Portugal? Se sim, qual função exerceu e como foi a experiência?

 

Sim, eu fui bolsista da universidade em Lisboa. Prestei o processo seletivo do Núcleo de Apoio ao Estudante (NAPE) e fui selecionado para fazer parte da equipe. O NAPE tem como dois principais propósitos: (1) a divulgação o IST e a disseminação da engenharia para os alunos que estavam no ensino médio de Portugal, (2) o auxílio do dia-a-dia dos alunos que já estudavam no IST (portugueses e internacionais).

 

De fato, foi uma experiência interessante. Diariamente trabalhava com outros portugueses (eu era o único brasileiro de lá) e conseguia trazer novos insumos aos nossos projetos, pois era estudante e internacional. Além disso, a equipe se revezava para dar o apoio constante aos estudantes na secretaria do Instituto. Para mim, a secretaria sempre foi desafiadora, pois era impossível prever os problemas que ali chegariam.

 

George - Estudar em Portugal

“Pelo ‘Projeto País’ do NAPE levamos a cultura do IST e o conhecimento a respeito engenharia para alunos do ‘ensino médio’ de Portugal. Fiquei responsável, com um outro colega, pela região centro-leste de Portugal. Aproveitamos para conhecer a Serra da Estrela (foto), o ponto mais alto de Portugal Continental.” – George Emiliano (Imagem: acervo pessoal) 

 

Você recomendaria Portugal como destino de estudo para outros brasileiros que estão considerando o país como destino de estudo? Por quê?

 

Na minha opinião, o IST é recomendado pela sua qualidade de ensino. Mesmo sendo uma das escolas mais tradicionais de engenharia de Portugal, o IST consegue estar à frente de seu tempo. As engenharias contam com laboratórios de ponta e profissionais (professores e funcionários) bastante prestativos no aprendizado do aluno e na obtenção de novos conhecimentos.

 

Lisboa é uma cidade viva, pacata e charmosa. Já Portugal é um país de nuances complexas ao mesmo tempo de uma simplicidade sem-igual. Consigo recomendar, sem hesitar, o “trio”, IST em Lisboa (capital de Portugal), a uma pessoa próxima.

 

Como os estudos em Portugal influenciaram a sua vida pessoal, acadêmica e profissional após o seu retorno ao Brasil?

 

Ao encontro com a influência da minha vida pessoal, mudei a maneira com que eu fazia críticas ao Brasil e à minha cidade, São Paulo. São Paulo é uma cidade pulsante da qual me fez bastante falta durante estes dois anos fora. Neste contexto, tive a oportunidade de visitar outras grandes capitais da Europa e vi muitos dos problemas de São Paulo nelas (furtos, excesso de veículos, transporte público lotado e outros problemas de cidade grande).

 

Em termos acadêmicos, percebi que a minha formação na Escola Politécnica da USP não me deixou em desvantagem em nenhum momento. Colegas brasileiros de outras instituições do Brasil convergiam na mesma conclusão. O Mestrado em Engenharia Geológica e de Minas complementou o meu conhecimento em diferentes áreas da extração e processamento mineral.

 

Por fim, através desta experiência, o profissionalismo foi bastante desenvolvido pelo contato diário com pessoas de nacionalidade distintas e que possuem diferentes maneiras de trabalhar. A minha atual flexibilidade em atuar e lidar em situações diversas é o um dos frutos destes dois anos.

 

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SOBRE O AUTOR

Portugal: George relata prós e contras dos 2 anos de mestrado em Lisboa

Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.