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China: Destino de Estudo

“A China é um universo dentro de um país”, diz brasileiro que é estudante e professor em Shenzhen

Gabriel Caetano, 30, estuda mandarim e leciona inglês em um centro de treinamento em Shenzhen: “A cultura, os costumes, as oportunidades, tudo aqui flui de um jeito diferente”.

“A China é um universo dentro de um país”, diz brasileiro que estuda mandarim e leciona inglês em Shenzhen
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Gabriel Caetano, 30, viajou à China para visitar amigos e acabou se apaixonando pela cidade de Shenzhen. Hoje, ele está no país estudando mandarim e lecionando inglês em um centro de treinamento, enquanto ainda mantém alguns de seus trabalhos remotos como tradutor freelancer.

 

Estudar na China

 

O Hotcourses Brasil teve uma conversa bem completinha com Gabriel sobre os pontos positivos e negativos de viver na China e como é preciso ter a mente aberta para aproveitar uma cultura totalmente diferente, mas enriquecedora.

 

Primeiramente, qual são a sua idade, cidade de origem no Brasil e a sua formação acadêmica?

 

Antes de mais nada, obrigado ao pessoal da Hotcourses pela oportunidade de contar sobre a minha experiência na China. Eu tenho 30 anos, nasci em São Paulo, capital, mas cresci em Americana, no interior do estado. Sou formado em Negócios Internacionais.

 

Você já teve alguma experiência de intercâmbio antes da China?

 

Nunca tive uma experiência de longo prazo antes da vinda para a China. Cheguei a viajar para o Canadá, com suporte da minha até então universidade, mas foi apenas para um curso de duas semanas.

 

Quais fatores e objetivos te levaram a optar pela China como seu destino de estudo?

 

Brasileiro na China

 

A China é um universo dentro de um país. A cultura, os costumes, as oportunidades, tudo aqui flui de um jeito diferente. Todo esse mundo de coisas novas muito me atraía. Ainda na universidade comecei a estudar o mandarim, até que no final de 2017, tive a oportunidade de vir para cá visitar uns amigos.

 

A segurança, as facilidades, a tecnologia e a qualidade de vida me deixaram apaixonados pelo país, mais precisamente pela cidade de Shenzhen. Foi paixão à primeira vista. Ao voltar para o Brasil, me planejei para vir estudar e viver, e foi o que eu fiz no começo de 2018. 

 

O que precisou providenciar para a sua viagem?

 

A China possui uma política bastante restrita quanto aos vistos, seja ele de turismo, estudo, negócios ou trabalho. Como minha primeira vinda foi como turista, eu possuía o visto L, de lazer. Para se estudar na maioria das universidades daqui, inclusive na Universidade de Shenzhen, é necessário dar entrada no visto de estudante – todo o processo pode ser feito por aqui, mas recomendo que se dê entrada na documentação ainda no Brasil, isso vai facilitar muito sua vida na China.

 

Também é necessário possuir a carteira internacional de vacinação, emitida pela ANVISA, por conta dos surtos de febre amarela e zika-vírus que tivemos no passado. É uma exigência para os brasileiros em praticamente todos os países da Ásia.

 

Onde e o que você estuda na China? Como escolheu o seu curso e a localização?

 

Eu estudo o mandarim na Universidade de Shenzhen e moro na cidade de mesmo nome, no sul da china, fronteira com Hong Kong. A escolha da localização deu-se por já possuir amigos morando aqui, do fato de Shenzhen ser uma cidade muito nova, de apenas 40 anos de idade, além de ser um polo tecnológico chinês – empresas como a OnePlus e a DJI são daqui. Um outro fato curioso é que Shenzhen possui um clima bastante parecido com o nosso no Brasil, o que facilita bastante a adaptação.

 

Estudar na China - Entrevista com brasileiro professor de inglês

 

Como foi a sua adaptação ao país e à cultura oriental? Como lida com as diferenças mais marcantes?

 

A adaptação aconteceu (e ainda acontece) gradativamente. É um mundo muito diferente do nosso. Eu costumo dizer que é impossível olhar a china pelo olhar de um brasileiro. Só entendemos o tamanho e as diferenças quando vivemos em solo chinês. A diferença que talvez demande mais paciência é a comida, bem diferente da nossa no Brasil. Isso não quer dizer que não tenha seus pontos positivos, é questão de experimentar.

 

O que tem achado da experiência de estudar chinês? Você tinha alguma proficiência antes da viagem? Como são as suas aulas?

 

Estudar mandarim na China

 

Estudar chinês é um desafio diário. Eu havia estudado o mandarim por alguns anos antes de vir para cá, mas tenho total convicção de que o fato de morar aqui contribuiu muito para o desenvolvimento, é como se eu estivesse em sala de aula 24 horas por dia. Por outro lado, é muito gratificante estudar o mandarim, pois, a cada diálogo que estabeleço, a cada situação complicada que consigo me safar com o uso do idioma, sinto como se estivesse resolvendo um quebra-cabeças.

 

Como surgiu a oportunidade de trabalhar lecionando a língua inglesa na China?

 

Após o término do meu primeiro semestre na universidade, surgiu o convite de um amigo para fazer uma aula demonstração em um centro de treinamento chinês e acabei contratado. Shenzhen é uma cidade em plena expansão, onde se vê crianças por todos os lados. Um negócio altamente lucrativo é o do ensino do inglês, ou seja, oportunidades para estrangeiros são muito frequentes.

 

Por conta dessa mudança de vida, precisei aplicar para o visto de trabalho e passei a estudar o idioma com auxílio da empresa ­– é comum este ser um dos benefícios oferecidos pelos centros de treinamento. Oficialmente, só é possível trabalhar na China com o visto de trabalho, embora eu conheça muitos estrangeiros que vivem com o visto de estudante, estudam na universidade e trabalham meio período lecionando (não é uma recomendação, mas existe).

 

Como tem sido a experiência de ser professor na China?

 

É algo muito gratificante. Aquelas histórias de que o professor é benquisto aos olhos da cultura oriental são verdadeiras. É possível sentir a admiração dos alunos e há reconhecimento pelo trabalho duro dos professores por parte de quem emprega. Isso tudo, somado ao desenvolvimento profissional que as escolas proveem aos professores.

 

Vale lembrar que 90% das escolas e centros de treinamento exigem que o professor tenha curso superior (preferencialmente na área de ensino), além de um certificado de ensino, como o TESOL ou o TEFL. O fato de não sermos falantes nativos do inglês também restringe um pouco as oportunidades.

 

Como tradutor, você também mantém serviços freelances além dos estudos e do trabalho como professor? Como você faz para gerenciar todas as suas atividades?

 

Sou tradutor há mais de 5 anos e foi o que me permitiu viver enquanto me dedicava quase que exclusivamente ao estudo do idioma. Por ser um emprego remoto, não precisei interromper meu trabalho, nem cortar laços com as agências para as quais eu trabalhava no Brasil.

 

Quando me tornei professor, precisei repensar minha disponibilidade e passei a me dedicar apenas aos clientes mais fiéis da tradução. A grande maioria dos meus trabalhos de tradução é feita durante meus dias de folga, ou durante as manhãs, já que as escolas de idioma na China funcionam no período vespertino/noturno (geralmente das 14h às 20h). Isso tudo sem abandonar os estudos e a prática da língua.

 

Além dos estudos e do trabalho, é possível aproveitar a vida social no país?

 

Trabalhar na China

 

Sim, a vida social na China é um pouco diferente da brasileira, mas é completamente possível aproveitar os dias de lazer. Para quem gosta de atividades ao ar livre, parques, montanhas e até praias são uma ótima pedida. Existem também alguns locais com uma grande concentração de bares e restaurantes, onde é possível encontrar estrangeiros do mundo inteiro e fazer amizades.

 

A comunidade brasileira é grande e bem espalhada pelo país, isso facilita muito na hora de fazer amizades e pegar as dicas e sugestões sobre o que fazer. Uma modalidade de esporte muito recente na China são as academias, quase sempre localizadas em shoppings e prédios comerciais.

 

O que achou da receptividade dos Chineses com estudantes internacionais?

 

Os chineses são bastante receptivos, em um misto de admiração e estranheza. É bastante comum que os chineses olhem, encarem e comentem sobre os estrangeiros. Lembrem-se que a China é um país que recentemente abriu suas portas ao ocidente. Uma dica valiosa, faça amizade com os chineses. Eles adoram, pela oportunidade de poderem praticar o inglês, sempre estão dispostos a ensinar um pouco do idioma e da cultura chinesa, além de serem aliados valiosos na hora de resolver as questões cotidianas e burocráticas do dia a dia.

 

Você recomendaria a China como destino de estudo para outros brasileiros? Por quê?

 

Recomendo a China com algumas ressalvas. Explico. Como dito anteriormente, é um país muito diferente do Brasil, consequentemente, possui muitas diferenças culturais, o que pode ser um fator dificultante para quem não vem para cá com a mente aberta.

 

No início, muitas coisas não fazem sentido, pois, estamos olhando os costumes sob a ótica brasileira. É preciso se aprofundar na cultura e até mesmo no idioma para que algumas coisas passem a fazer sentido. Se “o novo” não for um problema para quem deseja fazer um intercâmbio, a China é um convite praticamente irrecusável, com sua tecnologia, sua qualidade de vida, sua cultura milenar e a capacidade de nos fazer crescer, aprender e expandir nossa mente e nossos pontos de vista.

 

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SOBRE O AUTOR

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Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.