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Alemanha: Quando chegar lá

O aprendizado do idioma e a experiência de trabalho na Alemanha por um intercambista brasileiro

Vinícius conversou com o Hotcourses sobre o aprendizado do idioma alemão, o curso de engenharia e a experiência de estágio na Alemanha

O aprendizado do idioma e o ambiente de trabalho na Alemanha por um intercambista brasileiro
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O engenheiro Vinícius Rennó Campos foi um dos bolsistas contemplados pelo programa Ciência sem Fronteiras. A sua escolha de destino foi um pouco fora do comum: a Alemanha. Como ele mesmo diz, havia diversas vagas no país e pouca procura, e ele soube aproveitar a oportunidade. Um dos fatores da baixa procura pela Alemanha entre os brasileiros era a necessidade de saber a língua alemã. Leia nossa entrevista com o ex-bolsista sobre a sua relação com o idioma alemão, sua experiência de estudo no país e também como conseguiu um estágio durante o intercâmbio.

 

Quais motivos te fizeram escolher a Alemanha como destino de estudo?

 

Eu escolhi Alemanha por conta da tecnologia, cultura, idioma e a qualidade de vida. Tecnologia porque o país é uma referência e isso me agregaria muito como engenheiro. Em relação à cultura, a Alemanha valoriza muito suas tradições, realizando constantemente eventos onde você pode ir a diversos festivais experimentar a música, a culinária, as danças, os artesanatos e principalmente excelentes cervejas. Idioma porque eu gostaria de falar outro além do inglês e, apesar de complexo, o alemão é um idioma bem interessante de se aprender. Quanto a qualidade de vida, sempre tive a curiosidade de viver em um país onde você não precisasse se preocupar com sua segurança ao passear pelo centro da cidade à noite. Além disso, a Alemanha é um país com uma população muito saudável, onde geralmente as pessoas se alimentam bem, praticam esportes e gostam do contato com a natureza.

 

Como foi o processo seletivo? Qual foi o seu diferencial para ser selecionado como bolsista do Ciência sem Fronteiras?

 

Acredito que o processo seletivo do CsF para a Alemanha não foi tão complicado devido à grande disponibilidade de vagas para a Alemanha, alinhado a uma quantidade não tão grande de candidatos que atendessem os requisitos do edital principalmente por conta do idioma. Eu estava muito focado em ir para a Alemanha, com isso me atentei muito no edital e fui procurando atender a todos os requisitos, tanto do programa quanto da universidade. Pela universidade, tive que ter entre 20% e 90% da graduação concluída e ter um coeficiente de regularidade alto, que é basicamente uma média das notas durante a universidade. Pelo Ciência sem Fronteiras, foi necessário o certificado de proficiência no alemão, uma série de documentos pessoais, ter uma nota no ENEM novo acima de uma determinada nota. Pela universidade, tive que enviar uma carta de intenção, meu histórico escolar com tradução juramentada e carta de recomendação por algum professor.

 

O que achou do programa de maneira geral?

 

Eu achei o programa excelente! Aproveitei tudo que estava disponível, absorvendo o que tinha de melhor na universidade e principalmente na Alemanha. Dentre os diversos pontos positivos, destaco a parceria com diversas universidades de ponta, a qualidade dos cursos, a disponibilidade dos cursos de idioma e a preocupação com o bem-estar dos bolsistas.

 

Outro ponto extremamente positivo são as amizades que fazemos durante o intercâmbio, como por exemplo o meu grupo de intercambistas brasileiros de Magdeburg chamado “KAPUTT”, constituído por brasileiros de diferentes regiões do Brasil e com as mais distintas personalidades, que acabaram se tornando minha família durante o intercambio e mantenho contato até hoje.

 

Imagem: Parte do grupo Kaputt, formado por intercambistas brasileiros em Magdeburg.

 

Como ponto negativo, posso citar que, apesar de todas as oportunidades e recursos oferecidos pelo programa, há pessoas que não souberam aproveitar seja por comodidade ou dificuldade na adaptação em uma outra cultura.

 

Em qual universidade e curso você estudou? Como era sua rotina de estudos?

 

Estudei na Hochschule Magdeburg (Universidade de Ciências Aplicadas de Magdeburg) o curso de Engenharia de Negócios, com ênfase em Marketing e Qualidade. Eu me dividia entre as aulas de graduação e os cursos intensivos de alemão, que optei por fazer mais ao mesmo tempo e prestei o máximo de atenção, fazendo corretamente os exercícios, conseguindo, com isso, me desenvolver rapidamente no idioma. Já nas disciplinas de graduação, o começo foi um pouco difícil, mas meu rendimento melhorava aula a aula, acompanhando meu aprendizado no idioma, chegando inclusive a receber a melhor nota da sala na disciplina de Gerenciamento de Marketing, constituída apenas por alunos alemães.

 

Quando viajou, você já tinha proficiência na língua alemã e precisou prestar algum teste para comprová-la? Como foi a sua relação com o idioma durante a estadia?

 

As aulas eram todas ministradas em alemão. Antes do Ciência sem Fronteiras eu morei por três meses em Tübingen, perto de Stuttgart, onde aprendi o básico para sobreviver. A princípio, o CsF exigia proficiência B2, porém como poucos candidatos alcançaram esse nível, eles reduziram para A2, nível que atingi no test OnDaF no Brasil.

 

Ao chegar em Magdeburg, tive três meses de curso intensivo antes de começarem as aulas, o que me permitiu ter o mínimo para assistir às aulas de graduação. Durante as aulas na universidade, meu alemão foi melhorando cada vez mais, treinando os ouvidos e ganhando confiança. Durante os 6 meses de estágio, foi quando deslanchei, por conta, principalmente, da responsabilidade envolvida.

 

O que achou da cultura alemã, tanto a acadêmica quando a geral do cotidiano?

 

Além da pontualidade, disciplina e organização, uma coisa que gostei muito foi a forma com que os alemães aproveitam a vida e reforçam suas culturas. Ao longo de todo o ano é possível desfrutar de eventos como feiras e festivais, sempre muito temáticos e trazendo um pouco de sua história e cultura para toda a população.

 

E na universidade, uma forma de reforçarem a cultura é através do restaurante universitário, onde, por exemplo, no período do Oktoberfest serviram comidas típicas e até cervejas.

 

 

Como você conseguiu o seu estágio na Alemanha? A sua universidade teve um papel importante neste processo?

 

Consegui meu estágio por conta de uma entrevista para um jornal que a universidade me indicou. O jornal queria entrevistar um brasileiro por ser época da copa do mundo no Brasil. Na entrevista respondi sobre o que eu fazia na Alemanha e o que eu estava achando do país, dando também meu palpite sobre a copa do mundo. Na matéria eu citei que se conseguisse estágio ficaria por mais oito meses e não apenas mais dois.

 

Então, para minha surpresa, com essas poucas informações, recebi propostas de duas empresas de tecnologia, provavelmente pelo fato de estudar engenharia de negócios com ênfase em marketing e qualidade e ter facilidade com idiomas, já que as empresas tinham interesses em fazer negócios com clientes de diferentes países do mundo entre eles do Brasil.

 

Imagem: A matéria de jornal que resultou em duas propostas de estágio para Vinícius.

 

Onde você estagiou e como era a sua rotina de trabalho?

 

Estagiei em Magdeburg mesmo em uma empresa chamada FI Test- und messtechnik. Entrava às 8h e saía às 17h, tinha 15 minutos de café da manhã, 30 minutos de almoço e mais 15 minutos de café da tarde. Ganhava 870 euros por mês.

 

Na empresa fui o responsável pelo marketing e vendas internacionais de um aparelho recém desenvolvido em parceria com a Airbus que era capaz de reduzir em 70% o tempo do balanceamento de aeronaves. A empresa é de pequeno porte e não possuía até então um departamento de marketing, com isso, eu adquiri a responsabilidade de, mesmo como estagiário, planejar e executar uma estratégia de marketing e vendas desse produto.

 

Uma ação de destaque foi quando convenci o chefe da importância de estarmos presente na MRO Aviation Week em Madrid, um importante evento do nosso setor e, com isso, fui o representante da empresa no evento e acabamos colhendo bons frutos com nossa participação. Além disso, tivemos a honra de sermos finalista do prêmio Hugo Junkers de melhor invenção da nossa região na Alemanha.

 

O que achou da dinâmica profissional e do ambiente de trabalho na Alemanha? De quais maneiras eles se diferem do Brasil?

 

O ambiente de trabalho era bem profissional, com tratamentos formais e regras. A pontualidade sempre foi levada muito a sério, porém geralmente eram compreensíveis quando ocorria algum imprevisto. Os funcionários praticamente não interagiam fora do ambiente de trabalho acredito que por conta de suas obrigações em seus lares, o que dificultava fortalecer um laço de amizade, porém todos eram muito receptivos comigo.

 

Eu organizei uma confraternização entre nós em um boliche e isso nos aproximou muito, recebendo diversos elogios pela atitude. Outro momento que saímos juntos foi na confraternização de final de ano da empresa, em que fomos em um restaurante bem fino bancado pela empresa, porém se manteve a mesma formalidade do trabalho.

 

Uma diferença com o Brasil é que eles separam muito bem a hora de trabalhar, da hora de comer, da hora de divertir, da hora de conversar, então enquanto trabalham são totalmente concentrados e focados causando o mínimo de interação possível, o que pode deixar o ambiente não tão descontraído. Assim como a pontualidade funciona para a entrada, funciona para a saída, então quando dava o horário de ir embora, imediatamente eles saíam, não importava o que faltasse para terminar ou se alguém importante estava visitando a empresa. No Brasil, o ambiente de trabalho é muito mais descontraído, o que pode, por um lado, melhorar a motivação e por outro diminuir o foco dos trabalhadores.

 

Como foi o seu retorno ao Brasil? De qual forma o seu estágio influenciou na sua vida educacional e profissional depois de voltar?

 

Meu retorno ao Brasil foi de muita adaptação, primeiro pois minha história recente era toda na Europa, tendo dificuldades, no começo, para conversar sobre assuntos do Brasil, o que poderia soar um pouco arrogante. Segundo pois praticamente meus colegas de sala não estavam mais no mesmo período que o meu, tendo que reconstruir as amizades do zero. Porém aos poucos fui me adaptando novamente a rotina brasileira e tudo foi se normalizando. A família é fundamental nesses momentos.

 

O estágio me deu a certeza e confiança de que era aquilo que eu queria para minha vida profissional: marketing estratégico e vendas, então comecei a correr atrás de ainda mais experiência na área. O Primeiro passo foi fazer parte da empresa junior em Marketing, e posteriormente entrando para uma equipe de drones inteligentes na qual fui o responsável pelo marketing e pude aplicar boa parte do conhecimento adquirido no estágio. A equipe me permitiu desenvolver a habilidade de desenvolver parcerias estratégicas.

 

Por conta do meu desempenho na equipe de drones, conquistei meu estágio na Advantech, uma multinacional de tecnologia líder mundial de computador industrial e referência em Industria 4.0 e Smart City, onde sou o responsável pelo Marketing Corporativo e Parcerias. Com isso posso afirmar que o Intercâmbio teve um papel fundamental na minha vida e hoje estou muito satisfeito e colhendo todos os frutos que plantei com minhas escolhas.

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SOBRE O AUTOR

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Brenda Bellani é editora de conteúdo e tradutora do Hotcourses Brasil. É formada em Jornalismo e especializada em Língua Inglesa e Tradução pela UNIMEP. Já morou 18 meses nos Estados Unidos como au pair e é apaixonada por viagens. Como hobby, ela mantém um blog sobre livros e tradução e é dona de uma lista infinita de livros-que-quer-ler.