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Hong Kong: Destino de Estudo

Indo para Hong Kong

Ana Clara, do blog A bordo do mundo, conseguiu uma bolsa integral para fazer o seu doutorado em Hong Kong. Conheça os prós e contras da experiência segundo a brasileira!

A vida de estudante em Hong Kong segundo uma bolsista brasileira
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Meu nome é Ana Clara Oliveira Garner, sou de Belo Horizonte. Formei-me em comunicação social e tenho mestrado em comunicação e educação. No Brasil, eu era professora universitária, mas estava querendo fazer doutorado no exterior e tinha o desejo de morar na Ásia.

 

Uma amiga que faz doutorado em Singapura me falou de uma escola em Hong Kong que achou a minha cara: a  School of Creative Media (escola de mídia criativa), na City University of Hong Kong. Entrei no site da escola, vi seus recursos e me pareceu fantástica. Vi ainda que havia a possibilidade de conseguir uma bolsa do governo, a Hong Kong PhD Fellowship Scheme, para estudantes estrangeiros e decidi tentar uma vaga.

 

O período de inscrição do doutorado geralmente vai de setembro a dezembro. Tive que mandar um projeto, históricos acadêmicos e diplomas, e comprovação do nível de inglês. Em janeiro fiz uma entrevista por telefone (de madrugada no Brasil) e ainda no mesmo mês fui selecionada pela universidade.

 

Após essa etapa, a universidade mandou minha inscrição para a Fellowship e em março recebi a aprovação.  A universidade me ofereceu moradia gratuita por um ano e isenção das mensalidades. Essa última valia para o primeiro ano de estudos, mas no final de cada ano acadêmico, eu fiz um pedido para ser renovada baseada em mérito acadêmico. Por ano, a universidade seleciona duas pessoas por período para ter essa bolsa. Eu fiz bastante atividades extracurriculares e consegui a isenção de mensalidades para os anos seguintes.

 

Ou seja: vou terminar o doutorado, sem ter pago nada para a universidade.

 

Ana Clara em sua mesa de doutoranda na CityU, em Hong Kong.

 

A bolsa do governo, além do pagamento mensal, inclui uma verba para participar de 3 conferências internacionais e a possibilidade de passar um semestre no exterior. Na seleção de 2015, foram mais de 3.600 candidatos do mundo todo, para cerca de 200 vagas. No entanto, para quem não é selecionado pela Fellowship, a universidade oferece uma bolsa de menor valor, e a contrapartida é ser assistente de professor, o que é bom para o currículo e para experiência.

 

Visto de estudante

 

Tirar o visto de estudante foi tranquilo, embora tenha necessitado uma papelada. É a própria escola que pede ao governo o visto para os estudantes. Tive que preencher formulários e mandar para a CityU cópias de documentos como passaporte, cartas de aceite e da bolsa.

 

Para começar a estudar em setembro, esse processo foi iniciado em abril. O visto chegou no Brasil em junho e colei em uma página de meu passaporte. Ao entrar em Hong Kong precisei mostrar o visto e tive até 30 dias para ir à imigração e fazer a identidade de estrangeiro (geralmente válida para o período previsto de estudo). Meu esposo é britânico e ficou os 6 primeiros meses sem precisar de visto. Depois fizemos um visto de dependente para ele, em Hong Kong mesmo. Para validá-lo bastou sairmos e reentrarmos em Hong Kong. Fomos (e voltamos no mesmo dia) a Macau, que está a uma hora de balsa.

 

Cultura educativa

 

O sistema educativo de Hong Kong é baseado no modelo britânico. No Ensino Fundamental e no Médio há escolas em inglês e em cantonês. Já no nível superior, todas as universidades adotam a língua inglesa (aulas, trabalhos, comunicação interna). Assim, não é preciso saber nada de cantonês ou mandarim.

 

O doutorado para quem tem mestrado, deve ser feito em 3 anos. Na prática, quase todo mundo pede extensão, mas aí tem que se manter sem a bolsa. Os alunos têm acesso a diferentes laboratórios com computadores e softwares modernos. Para minha mesa de trabalho, pude escolher entre um mac e pc e tenho acesso a uma excelente conexão de internet.

 

A CityU oferece vários cursos e atividades extraclasses, gratuitos ou praticamente gratuitos. A escola se preocupa com o bem estar dos alunos. Os cursos vão desde crescimento pessoal (como liderança) até hobbies (ex: massagem e pintura), passando por orientação para o mercado (ex: como fazer currículo). Além disso, há diversos cursos de educação física que incluem atividades não convencionais como yoga, pilates, arco e flecha, golfe, esgrima e escalada. São organizados passeios turísticos e culturais com 60% dos custos cobertos pela universidade.

 

Há ainda um programa de aulas básicas de cantonês para estrangeiros, ministrada por alunos de graduação voluntários. Eu participei e, além de adquirir um vocabulário básico, fui “adotada” por duas meninas que me ajudam por telefone caso necessite de algo urgente e não consiga me comunicar.

 

Ana experimentando comidas típicas na aula de cantonês em Hong Kong.

 

A CityU tem uma residência universitária com quartos pequenos e com custo bem mais acessível que um aluguel. Hong Kong tem um sério problema com preço de moradia e ninguém pagaria o mesmo preço da residência em outro lugar, nem dividindo apartamento. Mas como sempre tem mais alunos do que vagas, é feito um sorteio.

 

A biblioteca tem inúmeros recursos, consegue praticamente todos os livros que precisamos (se não tem algum, podemos solicitar a aquisição). A coleção de mídia é bem completa, contendo de filmes clássicos a séries de TV. Além de televisores para assistir diversos formatos de vídeo, há um mini-auditório com tela grande. O espaço possui ainda à nossa disposição impressoras e scanners 3D e espaço de realidade virtual.

 

Cultura local

 

Hong Kong tem um status político peculiar. Em teoria, pertence à China, mas na prática não me sinto totalmente em território chinês. Explico: a moeda é diferente; o sistema judiciário é distinto; as línguas oficiais são outras (inglês e cantonês - e não mandarim); o passaporte é próprio; é preciso de visto para passar de Hong Kong para a China e da China para Hong Kong; há liberdade de expressão e internet sem censura. A colonização britânica por 150 anos deixou suas marcas, mas a cultura chinesa é a que predomina.

 

Ana e esposo em seu lugar favorito m Hong Kong: Chi Lin Nunnery.

 

A cultura é tão diferente que o período de adaptação costuma ser de no mínimo 6 meses. Comparado com quando fiz o mestrado em Barcelona, a adaptação foi bem mais lenta. Participei de algumas palestras sobre a cultura local e fiz amizades locais, o que ajudou muito. As curiosidades em relação à cultura são tantas, que tenho vários posts só com curiosidades culturais no meu blog A Bordo do Mundo.

 

Para mim as melhores coisas de Hong Kong são:

 

  • Segurança: é uma das cidades mais seguras do mundo. Eu nunca vi ninguém falar que foi assaltado.
  • Transporte público: moderno, rápido e barato, além do cartão Octopus que facilita nossa vida.
  • Vida cultural: há diversas atrações turísticas e culturais, de templos tradicionais a modernos museus. Com belezas naturais e cercadas de montanha e mar, é um paraíso para quem gosta de fazer trilhas.

 

Já as piores coisas na minha opinião são:

 

  • Comida: essa não deu para adaptar mesmo. Nada a ver com a comida chinesa que comemos no Brasil, umas coisas com textura estranhas e sabores esquisitos...
  • Custo de vida: Hong Kong está entre as 5 cidades do mundo mais caras para se viver. Principalmente, por conta do custo da moradia. A Fellowship é suficiente para uma pessoa desde que a moradia seja na residência ou dividindo um espaço. Fica impossível para duas pessoas viverem só da bolsa (o visto de estudante não permite trabalhar, nem mesmo ao cônjuge).
  • O tamanho minúsculo das moradias: Hong Kong é densamente povoada e em 70% do espaço não se pode construir. Isso faz com que as moradias sejam pequenas e caras.

 

Saiba mais sobre os prós e contras de morar em Hong Kong.

 

Ponte entre Oriente e Ocidente

 

Uma das atividades do doutorado de Ana Clara em Hong Kong é dar aulas para estudantes locais.

 

Após dois anos aqui, não posso dizer que não sofro mais choques culturais. No entanto, passada a parte de adaptação, é hora de aproveitar Hong Kong. A cidade é uma metrópole que se orgulha de ser a ponte entre o oriente e o ocidente.

 

É também uma ótima mistura de modernidade com tradição. Há forte presença de estrangeiros, principalmente asiáticos e europeus, enquanto os latinos somos mais raridades. Se por um lado a saudade aperta, por outro, como geralmente acontece em lugares cosmopolitas, é fácil fazer amizades com outros expatriados, que acabam virando nossa família.

 

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Ana Clara é de Belo Horizonte, Minas Gerais. Formada em Comunicação Social (mais especificamente em Audiovisual), foi professora de relações internacionais de uma faculdade em BH até 2015, quando foi para Hong Kong fazer Doutorado. Anteriormente, já morou nos EUA e fez mestrado em Barcelona. Planeja fazer um pós-doutorado na Inglaterra, país do esposo. Ama viajar e em 2017 visitou seu país número 51. Desde 2009 tem um blog, A Bordo do Mundo, no qual relata casos e dicas de viagem, além de curiosidades culturais.

 

Ana Clara também é colunista da plataforma colaborativa Brasileiras pelo Mundo.

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