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República da Irlanda: Quando chegar lá

Entrevista: de estudante a fotógrafo, Fábio compartilha sobre 10 anos de experiência em Dublin

Fábio mora há dez anos na Irlanda, onde estudou inglês, tornou-se fotógrafo, tirou a cidadania italiana e se casou. Em entrevista, ele compartilha o que aprendeu com sua experiência!

Entrevista: de estudante a fotógrafo, brasileiro conta sobre 10 anos de vida em Dublin

O fotógrafo e publicitário Fábio Gibelli, 36 anos, decidiu ir à Irlanda realizar o seu sonho de morar no exterior em 2011. Ele fez o caminho conhecido pelos brasileiros: foi como estudante, fez curso de inglês nos primeiros meses e decidiu estender sua estadia.

 

Após o primeiro ano em Dublin, escolheu um curso certificado em fotografia e, hoje, mora no país há dez anos e tem o seu trabalho reconhecido.

 

Fábio conversou com o Hotcourses Brasil sobre a sua experiência, inclusive o processo de solicitação de cidadania italiana, como é trabalhar na Irlanda, morar no bairro mais agitado da cidade e como Dublin mudou com a pandemia.

 

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Como foi a sua decisão de estudar em Dublin? Quais razões te levaram a optar pela Irlanda?

 

Sempre tive o sonho de explorar outros lugares do mundo, viajar e fazer intercâmbio. Estabeleci então um plano em minha cabeça de que teria de sair do Brasil antes dos meus 27 anos, e assim foi.

 

Escolhi Dublin pela facilidade e duração do visto de estudante na época, e pela oportunidade de aprender inglês em um país situado na Europa. Além disso, o visto dava a permissão para trabalhar, o que era extremamente importante.

 

Quando cheguei na Irlanda em 2011, as leis eram outras e você tinha 1 ano de visto com a possibilidade de trabalhar 20 horas semanais durante o curso e 40 horas semanais depois de concluir o curso, além de poder renovar duas vezes na mesma categoria de visto.

 

Hoje a lei mudou e o tempo de visto é de 8 meses, ainda com duas renovações, mas podendo trabalhar 20 horas semanais durante todo o tempo do visto.

 

Como foram os primeiros meses no país? Você teve uma adaptação tranquila?

 

Estudante brasileiro em Dublin no inverno

St Stephen's Green, Dublin. (Acervo pessoal)

 

Os primeiros meses foram incríveis! Eu senti que finalmente estava onde deveria estar e que o meu sonho estava se realizando a cada dia, a cada novo amigo, a cada viagem, festa e descobertas.

 

Não foi proposital, porém tive a sorte de chegar na Irlanda na melhor época do ano, em pleno verão, o que facilitou e muito a minha adaptação no país, já que o inverno é bem forte. Inclusive meu primeiro inverno foi horrível de aguentar. Além de chegar no verão, também sempre morei (e ainda moro) no bairro mais famoso e turístico de Dublin, o Temple Bar, recheado de pubs, festas, música e cultura.

 

Logo já me apaixonei completamente pela cidade, pela arquitetura e pelos novos amigos que conquistei. Tudo era novo e excitante. Me lembro de brincar dizendo que eu tinha nascido outra vez, agora falando outra língua e desbravando um novo mundo bem diferente do qual eu vivia antes.

 

Em quais escolas e quais cursos você estudou no país? Como foram essas experiências?

 

Em meu primeiro ano em Dublin estudei inglês na escola NED Training Centre e foi ótimo para aprender, aprimorar e praticar a língua, além de fazer novos amigos.

 

Em meu segundo ano já não sentia tanta necessidade, nem vontade de fazer outro curso de inglês e por isso fui atrás de algo que acrescentasse em minha profissão e agregasse valor ao meu currículo.

 

Fiz então um curso certificado em fotografia na escola NCBA e foi uma das melhores decisões que tomei, visto que a fotografia sempre foi uma de minhas maiores paixões. Tive aulas na escola, equipada com estúdio fotográfico e aulas práticas pela cidade, tanto durante o dia quanto durante a noite.

 

No final do curso tive que apresentar meu caderno de anotações e um portfólio de 20 trabalhos fotográficos, sendo 10 fotos com o ensaio de algum tema. Em seguida, todo o conteúdo foi auditado por profissionais certificados do Reino Unido.

 

Brasileiro em Dublin: Fábio estudou fotografia e mora na Irlanda há dez anos

Connemara National Park, Galway, Irlanda. (Acervo pessoal)

 

Como foi o processo da cidadania italiana? Você se mudou para a Irlanda com isso já decidido ou foi algo que aconteceu enquanto estava aí? Estar na Irlanda ajudou no processo?

 

O começo do intercâmbio é maravilhoso com tantas novidades e descobertas, porém a gente aprende que com tudo isso vem a saudade de casa, da família, amigos e o clima do Brasil. Minha ideia inicial então era de que ficaria na Irlanda por 1 ano, porém os planos mudaram e acabei renovando duas vezes meu visto de estudante. Quando percebi que não queria ir embora tão cedo tive que correr atrás da cidadania Italiana que eu tinha direito.

 

Nessa mesma época também eu já estava namorando um irlandês e então a ideia sempre foi ficar. Nos casamos e logo em seguida fui para a Itália finalizar o meu processo. Foi um período de conquistas, porém de muito estresse também.

 

Estar na Irlanda sem dúvidas ajudou no processo por conta de estarmos relativamente perto da Itália. A ajuda do meu pai foi fundamental para a conquista da minha cidadania, ele conseguiu reunir e organizar todos os documentos no Brasil enquanto eu procurava a certidão de nascimento do meu bisavô na Itália, com a ajuda de uma assessoria. Quando tudo estava pronto, eu só precisei ir para a Itália finalizar o processo, e por isso morei lá por 6 meses.

 

Como foram suas experiências de trabalho em Dublin? O que acha da cultura profissional do país? É muito diferente da brasileira?

 

Nos meus primeiros meses em Dublin, me dediquei exclusivamente ao estudo, graças às economias que juntei trabalhando no Brasil. Naquela época a cotação do Euro não era tão absurda como é hoje. Porém, trabalhar e ganhar em Euro sempre esteve em meus planos, claro!

 

O começo não é tão fácil e você precisa estar aberto a todas as oportunidades. Com o visto de estudante e as horas de trabalho limitadas, trabalhei por três anos com faxina nos mais diversos escritórios e até em um cassino e festival de música.

 

Às vezes tinha que trabalhar em quatro lugares no mesmo dia, tendo que correr de um escritório ao outro e acordando às 5 da manhã com a temperatura abaixo de zero. É um trabalho físico muito pesado, mas vale a pena quando seu esforço te proporciona viver bem no país e viajar pela Europa.

 

Depois do curso de fotografia me senti motivado e criei minha própria marca, 'Fábio Gibelli Photography'. Comecei então a trabalhar como fotógrafo nas horas vagas, enquanto ainda fazia os trabalhos de faxina. Comecei aos poucos até criar um portfólio legal de trabalhos e montar meu website e Instagram profissional (@gibelli_photography).

 

Hoje faço diferentes tipos de photoshoot, casamentos, etc. A paixão pela fotografia já me rendeu momentos incríveis, clientes especiais e reconhecimento no Reino Unido, Irlanda, EUA e Brasil. Na Irlanda já tive fotos publicadas três vezes pela mesma revista, 'Cara Magazine', um dos veículos de comunicação da principal companhia aérea do país, a Aer Lingus.

 

Voltando da Itália trabalhei durante 4 anos em uma instituição educacional que promove aulas online na área de marketing digital. Aqui exerci desde a minha profissão como designer gráfico e fotógrafo, como também aprendi novas funções e ferramentas, como gravação, produção e edição de vídeos das aulas.

 

Quanto à cultura profissional daqui, a Irlanda é um ótimo país para trabalhar, com salários competitivos e vários benefícios. Além de ser casa de gigantes da tecnologia, como Google, Facebook, Airbnb, Microsoft, Twitter, etc.

 

Porém, algo que me irrita muito na maioria das empresas em busca de um profissional é o nível de exigência. O processo seletivo muitas vezes é exaustivo, com diversas etapas, incluindo apresentações de projeto e inúmeras entrevistas que no final podem nem resultar em contratação. É comum de se ver a mesma vaga sendo exibida por várias semanas nos sites de pesquisa, mesmo após ótimos candidatos terem sido entrevistados.

 

Estar preparado e qualificado para o mercado de trabalho é fundamental, porém eu acho que algumas empresas aqui exageram nos requisitos. Não falo tudo isso por experiência própria, mas sim de pessoas que conheço e passaram por isso.

 

Como foi 2020 para você na Irlanda, durante a pandemia? Você estava trabalhando ou estudando? A sua rotina foi afetada de alguma forma?

 

A vida em Dublin pode ser bem agitada, com um pub a cada 20 passos e festas de monte. É difícil ficar quieto dentro de casa, tem sempre uma baladinha ou encontro de amigos para tomar uma cerveja. Com a pandemia, 2020 foi totalmente diferente. Diante das restrições do governo irlandês, os pubs estão fechados desde março do ano passado e por enquanto sem previsão alguma de serem reabertos.

 

No começo foi muito estranho olhar pela minha janela e não ver ninguém na rua, principalmente por eu morar no bairro mais agitado de Dublin. Confesso que foi difícil no início, mas acabei me acostumando e nem sinto tanta falta de sair. Nesse momento o país está em seu terceiro confinamento (lockdown) e o mais difícil é não poder ver seus amigos o tempo todo.

 

Assim como muitos, perdi meu trabalho e por isso foquei em atualizar meu currículo, meu portfólio e website. Também estou aplicando para vagas de trabalho e no momento estou fazendo um curso online. Fora isso, foram inúmeros filmes, séries, receitas, treinos de academia em casa e formas criativas de se comemorar datas importantes sem sair de casa, o que foi bem legal, diferente e surpreendente.

 

Depois de dez anos morando no país, o que você destaca dos prós e contras principais de estudar, trabalhar e viver na Irlanda?

 

Estudar em Dublin: Fábio estudou inglês na Irlanda e depois se formou fotógrafo

Powerscourt House & Gardens, Wicklow, Irlanda. (Acervo pessoal)

 

A Irlanda, assim como qualquer lugar do mundo tem seus defeitos, porém os pontos positivos se sobressaem aos negativos. Não é à toa que estou aqui já faz dez anos. A meu ver, os prós e contras muitas vezes andam lado a lado. Por exemplo:

 

De contra posso citar o clima frio, os dias nublados, a chuva e o inverno com sua escuridão a partir das 4 da tarde. No entanto, a gente aprende a ser grato e apreciar mais os dias lindos de sol e de céu azul. E são muitos viu! O verão é maravilhoso e Dublin se transforma em uma outra cidade.

 

A enorme saudade da família e amigos no Brasil também é ruim. Mas por outro lado aqui você acaba criando uma nova família: seus amigos brasileiros que estão no mesmo barco que você. E são muitos, cinco minutos na rua e você vai ouvir alguém falando português. No meu caso, além dos amigos, também tenho minha família Irlandesa aqui para me acolher quando preciso.

 

Viver no país e aprender uma nova língua é ótimo, mas depender de um visto com data de validade pode trazer muitas dores de cabeça. Por isso é importante aproveitar cada segundo, pois num piscar de olhos você terá de decidir se vai renovar o visto ou ir embora.

 

Os chamados empregos informais também podem ser pesados e cansativos, mas a recompensa é maior e melhor que executando a mesma posição no Brasil. Aqui você pode trabalhar de faxineiro hoje, e estar de férias em Paris amanhã.

 

Você recomendaria Dublin a outros brasileiros interessados em estudar fora? Por quê?

 

Com certeza! Se você vier com a mente aberta, vontade de aprender e disposto a encarar um recomeço diferente, a Irlanda pode ser uma ilha fantástica e mágica. Os irlandeses são muito hospitaleiros e acolhedores, com um ótimo senso de humor e muito parecido com o nosso.

 

A comunidade brasileira é imensa e vem aumentando a cada ano. Dublin é bastante cosmopolita, lar de muitas outras nacionalidades também e você pode conhecer pessoas do mundo todo.

 

Como já citei, Dublin é casa das gigantes de tecnologia e a busca dessas empresas por profissionais da língua portuguesa é grande. Tenho vários amigos que começaram como faxineiros, babás, lojistas e hoje trabalham no Facebook, Google, Apple, etc.

 

Enfim, a Irlanda é um país lindo, muito especial e acolhedor. Se você conseguir se encaixar e se adaptar, seus planos de viver aqui por um ano podem se tornar dez anos num piscar de olhos. Mas sejam alguns meses ou alguns anos, o importante é se dedicar, respeitar o país e aproveitar cada momento dessa incrível jornada.

 

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